Arquivo mensais:novembro 2012

Uma palavrinha sobre descanso…

Fim de ano…

Geralmente, esta é uma época de férias para muitos ou, pelo menos, existe uma atmosfera de expectativa sobre um descanso porvir… Nesses dias, uma das expressões mais comumente encontradas é “estou cansado“, e realmente a maioria procura viajar ou ir para lugares distantes de sua rotina diária. Há, no entanto, um porém…

Dentre tantos assuntos populares nesta época, quero destacar um em especial: o cansaço (ou enfado, como diriam alguns). O termo férias invariavelmente está conectado ao cansaço experimentado por muitos (ou todos nós…). Entretanto, se nos detivermos um pouco mais sobre o tema, iremos verificar que o remédio para o cansaço nem sempre é as férias. Afinal de contas, no que se pensa quando se está afadigado? Férias! Tem-se o conceito de que, para descansar de algo, basta parar de fazer aquilo que me cansa…certo?

Nem sempre.

Já aconteceu de você voltar do período de férias e, dias depois, estar novamente esgotado? Sem força mental para continuar em frente? Por que isso acontece? Quem disse que o cansaço tem relação com aquilo que fazemos?

Alguns declaram que estão cansados por trabalhar demais…outros por não trabalharem! Então…fazer cansa? Sim! E não fazer? Cansa também…

Interessante.

Outros exclamam: “estou cansado de ficar sozinho!”, ao passo que alguns dizem estar cansados da esposa ou do marido…então, estar só cansa, e estar casado também? Me responda uma coisa: como é que alguém que está cansado de estar só descansa? Colocando alguém do seu lado? E quem está cansado de ter alguém do seu lado? Mandando o outro embora?

Não é interessante?

Uns reclamam do cônjuge por ele estar sempre ocupado e apressado…outros pelos respectivos não fazerem nada, não terem iniciativa…e aí, estar ocupado cansa? E ter tempo livre cansa também?

E aqueles que reclamam estarem cansados da vida? “rapaz, estou cansado da vida que eu vivo…” mas ao mesmo tempo tem medo de morrer. Como é que alguém que está cansado da vida descansa? Tirando sua própria vida ?

Alguns buscam mudar o visual. Estão enfadados do que veem no espelho. Tingem o cabelo, cortam, alisam, encrespam…e depois de algum tempo, continuam cansados. Eram cansados feios…tornaram-se cansados bonitos!

Outros buscam um novo emprego. Pedem as contas, e de cansados empregados tornam-se cansados desempregados…

 Quantos já ouviram esta pergunta - e aí, descansou? - depois de um período de férias?

 Cansaço, cansaço, cansaço…

 Ufa! Só de escrever cansaço já deu uma “canseira”…

Depois de tanta “canseira”, onde podemos realmente achar descanso para nossas almas?

Antes de tratar do que fazer, vamos ver um exemplo do que não fazer. Veremos exatamente o caminha trilhado pela grande maioria, e ficará óbvio o fracasso em buscar descanso nos lugares errados. Acompanhe comigo:

Salomão, que reinou em lugar de seu pai Davi, disserta, entre outras coisas, sobre sua busca por descanso no livro de Eclesiastes (escrito no período final de sua vida). É muito interessante observar a abordagem que ele dá ao tema, pois parte do ponto de vista de si mesmo e dos resultados das experiências que teve. O primeiro capítulo, no versículo dois, já traz uma introdução bem animadora do assunto:

Coisas inúteis e mais inúteis!, – diz o Pregador – Coisas inúteis e mais inúteis! Tudo é inútil!

Trocar de emprego é inútil…trabalhar demais é inútil…ir para o salão de beleza, trocar o carro, ficar sem fazer nada….é inútil! Trocar de esposa ou marido? Aí é pecado mesmo!

Dentro do contexto trazido pelo autor, sigamos a leitura até o versículo nove:

“Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho que ele trabalha abaixo do sol?  Geração vai, e geração vem; porém a terra permanece para sempre.  O sol nasce, e o sol se põe; e se apressa ao seu lugar onde nasceu.  O vento vai ao sul, e rodeia para o norte; continuamente o vento vai rodeando e voltando aos lugares onde circulou.  Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar onde os ribeiros correm, para ali eles voltam a correr.  Todas estas coisas são tão cansativas, que ninguém consegue descrever; os olhos não ficam satisfeitos de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.  O que foi, isso será; e o que se fez, isso será feito; de modo que nada há de novo abaixo do sol”. (Ec 1.3-9)

 É…não creio que Salomão pudesse ganhar a vida com palestras motivacionais! Ele trata aqui do cotidiano, da rotina diária. De quando acordamos todos os dias no mesmo horário, fazemos as mesmas coisas, ouvimos as mesmas desculpas esfarrapadas de sempre, as mentiras, a futilidade, o trânsito…semana após semana, mês após mês, ano após ano…

Como você acha que ele se sentia? Exatamente como nós: cansado…

Ele vai então trilhar o caminho que muitos fazem: colocar a mochila nas costas e vazar! Fui! Será esta a resposta?

“Disse a mim mesmo: experimentarei o prazer e verificarei o que é alegria.” Ec 2.1a

Ele disse isso a si mesmo provavelmente por estar se sentido só. Em outras palavras, está dizendo: “quer saber? Vou sair mesmo, vou prá (sic) balada…” . Em nossos dias, Salomão iria se tornar um frequentador de boates, bailões e afins…

O resultado?

” …eis, porém, que também aí só encontrei futilidade. Em relação ao riso, concluí: é loucura! – e em relação à alegria me perguntei: a que conduz?

O que ele encontrou? Mais inutilidade…depois das luzes desligadas, do silêncio…sobrou a ressaca e o cansaço.”é bobagem” - ele diz - “risos fúteis de nada servem”…

E ele continua:

“Procurei deliciar meu coração com o vinho, mantendo ao mesmo tempo a sabedoria e insensatez, a fim de descobrir o que, para os filhos dos homens, é melhor para se praticar debaixo do sol, durante o tempo de suas vidas”. Ec 2.3

Em termo bem popular, Salomão “encheu a cara“! Todo bêbado parece alegre….mas a ressaca veio, a dor de cabeça e a realidade continuavam ali. E o que ele busca então?

“Fiz para mim obras grandiosas; construí casas para mim; plantei vinhas para mim. Fiz para mim pomares e jardins; e plantei neles árvores de toda espécie de frutos. Fiz para mim tanques de águas, para regar com eles o bosque em que se plantavam as árvores. Adquiri escravos e escravas, e tive escravos nascidos em casa; também tive grande rebanho de vacas e ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém”. Ec 2.4-7

Bom, agora Salomão torna-se um workaholic. Trabalhar, trabalhar e trabalhar…se o tal “deixa a vida me levar” não adiantou, quem sabe empreender grandes realizações? Obras faraônicas? Acumular riquezas? E ele acumula, acumula (…acumulei também prata e ouro, e províncias…), mas….NADA! O seu interior continuava o mesmo! E agora? Bom, que tal trocar o cd?

 ”…reservei para mim cantores e cantoras…” (verso 8b)

Hum….mudar a trilha sonora…ouvir outras coisas. Vistar museus, exposições de arte, ir ao cinema? E quem sabe…

“…e dos prazeres dos filhos dos homens: várias mulheres”. (verso 8c)

Concubinas em grande número. Mulheres, orgias. Se isso resolvesse, ele estaria mais que feliz! Ele teve 1000 mulheres…mas quer saber? Nada novamente!

Percebeu? Os métodos “modernos” de saciar a alma – noitadas, bebida, trabalho em demasia, prostituição – não podem e nunca poderão trazer o descanso que precisamos. Porque este descanso que tratamos aqui não é físico e nem psicológico…é da alma!

Sabendo disso, Jesus nos ensina que:

“Vinde a mim todos os que estais cansados, e carregados, e eu vos farei descansar. Tomai sobre vós meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para vossas almas”. Mt 11.28,29

Algumas lições importante aprendemos aqui:

1 – o cansaço é uma realidade para todos nós: independente de origem, profissão ou classe social. Desde que o pecado entrou nesta terra, “…do suor do teu rosto comerás o pão…” (Gn 3.19). Sendo o cansaço uma realidade, temos então a segunda lição:

2 – ir a Jesus e tomar seu jugo: Há, no grego, um imperativo aqui (Ελθετε venha! ) que nos mostra a força deste convite. Não é algo despretensioso, mas quase que uma ordem para seus ouvintes:Venham! Jesus usa o exemplo pastoril de dois bois ligados entre si por uma canga, ou jugo. Isso facilitava o trabalho dos animais, pois era mais fácil suportar o trabalho e cansava menos. Temos, em Jesus, uma provisão de força onde podemos vencer os ventos contrários que procuram nos impedir de seguir em frente.

3 – aprender de Jesus: aprender aqui (μαθετε) traz aceitar o próprio Cristo, rejeitando a existência antiga e começando uma nova vida como discípulo dEle. Não se trata aqui de um aprendizado intelectual. É trazer para o âmago do homem a humildade e mansidão, contrários à natureza egoísta e pecaminosa do velho homem. É tornar-se um discípulo de Jesus em Sua essência…

4 – aprender a descansar nEle: Mateus usa aqui uma palavra grega (αναπαυσει) que tem o conceito de pausa. Jesus, então, nos chama para um momento de descanso em meio às atividades. Lembra de Marta e Maria? O problema de Marta não era trabalhar, mas trabalhar no hora errada! Existem momentos de pausa, onde devemos deixar nosso cotidiano de lado para focar em outra coisa – aqui, no ensino do Salvador. Qual a última vez que você realmente conseguiu para tudo o que estava fazendo e descansar? Quando foi a última vez que você passou algum tempo na presença de Deus, desfrutando de Sua companhia?

Deus está dizendo: quer vencer o cansaço? Descubra o foco dele!”. E onde ele se aloja? Na alma (psiquê). Por isso ações e fatores externos não conseguem trazer o descanso. Se o cansaço é dentro, não há mulher, carro, posses ou dinheiro que resolva! Jesus sabia que o ser humano tende ao cansaço, e mais ainda, busca suprir de descanso a alma onde não há provisão para tal.

E por último: lembre-se da conjunção aditiva ”e” na sentença de Jesus:

“Tomai sobre vós o meu jugo, E aprendei de mim…E achareis descanso para vossas almas”

Em Cristo,

Pr. Daniel


De que lado você fica – parte 3

(Leia a primeira parte aqui e a segunda aqui)

Continuando nossa série de reflexões sobre Josué, o Senhor o leva a um ponto fundamental no processo de conquista, auxiliando em sua função como líder e agora profeta do povo: a sabedoria. 

Qual o conceito bíblico de sabedoria? Seria ela um dom restrito a poucos privilegiados ou, pelo contrário, disponível a todos quanto investirem tempo em buscá-la? Seriam necessários anos de estudo acadêmico ou uma cosmovisão apurada traz consigo a verdadeira sabedoria? Para responder a esta pergunta, observe a orientação que o Senhor traz a Josué:

 “Somente seja forte e muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido”. (Js1.7-8 grifo nosso)

Note a ênfase em certos aspectos relacionados a determinadas posturas frente a Palavra de Deus: obediência, discurso alinhado, pensamento subordinado ao crivo da Palavra e, por fim, ações práticas em prol da revelação. Iremos, portanto, explorar neste texto cada um destes aspectos para lançar as bases de um entendimento mais acurado do que seria, biblicamente falando, sabedoria. 

Tudo vai começar pela obediência. Tendo em vista a série de batalhas que seriam travadas pela conquista da terra, estar alinhado com a Lei do Senhor era o pré-requisito fundamental neste processo. Haviam inimigos na terra; mais fortes e melhor preparados na arte da guerra. Israel, ao contrário, era formado pela segunda geração do povo que havia saído do Egito – portanto, filhos de escravos. Não tinham experiência alguma com a guerra, não tinham treinamento militar e nem tampouco um exército propriamente dito. Claro, haviam muitos homens na idade propícia para lutar, mas obviamente não se poderiam comparar com aquilo que os esperava. Deve-se também ter em mente os inimigos espirituais - demônios que mantinham seu domínio sobre os habitantes daquela região, e com certeza eles não iriam embora pacificamente (na realidade, sua influência continuou mesmo depois de conquistada a terra – mas isso já é assunto para outro post). É neste contexto que a ordem do Senhor começa a fazer sentido, pois há um princípio elementar de batalha espiritual aqui – veja o que Tiago ensina:

“Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo e ele fugirá de vós” (Tg 4.7)

Obediência é o primeiro passo de qualquer conquista espiritual que possamos almejar. É ter aplicado em nossa vida, em todas as suas esferas, as orientações contidas nas Escrituras. Isso vai refletir em nossas relações (com Deus, conosco mesmo e com os outros), na maneira como lidamos com as finanças e como respondemos às mudanças em nosso caráter e cosmovisão. Deve-se lembrar que a tendência natural é a rebeldia, fruto da queda original; queda esta que afetou de forma profunda todas as relações humanas acima citadas. Entretanto, esta não é uma obediência cega; Josué foi instruído a obedecer tudo o que aprendera com Moisés. Preste atenção aqui: a verdadeira obediência a Deus advém de um coração humilde, disposto a aprender com os outros por meio de uma relação saudável. Numa cultura individualista como a nossa, é um desafio diário estabelecer e cultivar bons relacionamentos, ao sermos bombardeados por uma mídia que exalta a satisfação do eu em detrimento dos outros. A obediência de Josué estava atrelada à sua relação de longa data com Moisés.

Vale a pena ressaltar isso: como cristãos, não podemos cair no laço da autocomiseração (uma forma velada de orgulho), fazendo do papel de “vítima” um escape para alimentar o ego de uma forma doentia, nem tampouco nos colocar num patamar acima dos outros, tendo uma visão distorcida de força e estabilidade. De um modo ou de outro, abre-se um caminho para o isolamento e, por fim, a queda. Cristianismo é relacionamento – nunca esqueça disto!

Como resultado desta obediência, Josué teria um discurso alinhado com a Palavra de Deus. Isso era essencial não só para validar sua liderança, mas também para mostrar a continuidade do plano divino. O verdadeiro líder de Israel era o Senhor; Moisés, Josué ou qualquer outro líder a se destacar seriam apenas mediadores chamados por Deus como “porta-vozes”. Era importante que a nação aprendesse este princípio de modo a, mais tarde, ser o luzeiro entre as nações, testemunhando as obras grandiosas de Deus. Jesus mesmo faz menção ao nosso discurso ser reflexo do conteúdo de nosso coração (Mt 12.34).

O fruto da obediência e de um discurso alinhado na vida de Josué seria uma nova visão de mundo – em outras palavras, ele seria capaz de ler a realidade a partir da perspectiva divina. Isso já era manifesto quando do relato dele à Moisés juntamente com Calebe. Ambos, ao contrário do restante, viram a Terra Prometida como Deus a via. Observe como o ponto de vista correto faz toda a diferença! De todos os que partiram do Egito, apenas dois homens (com a perspectiva certa) sobreviveram aos quarenta anos. O restante morreu no deserto ao defender seus pontos de vista particulares. Isso é fundamental em nossos relacionamentos também. Paulo, ao escrever aos coríntios, os instrui a olhar os outros não mais pela ótica carnal (2Co 5.16) e isso precisa fazer parte dos fundamentos de nossas relações. As pessoas que convivem conosco certamente irão falhar em algum momento. Todos são falhos. Porém, sendo convertidos a Cristo ou não, devemos olhar e ver como se a obra do Senhor já fosse uma realidade na vida de determinada pessoa; orar pelos perdidos e exercer o perdão aos irmãos da fé. Lembre-se de que, se os outros erram, nós também erramos. Este ponto já nos leva ao último fundamento a ser observado por Josué (e por nós): atitude.

Todo nosso discurso sempre será provado pelas nossas atitudes. Ao contrário do pensamento grego (que valoriza a sabedoria conceitual), os hebreus tinham como conceito de sabedoria uma resposta prática a um ensinamento. Em outras palavras, o sábio não era aquele que necessariamente dominava determinado assunto, mas que agia de acordo com o que falava. Salomão, ao escrever o livro de Provérbios, dá um exemplo interessantíssimo:

“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio. Pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador; prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento.”(Pv 6.6-8)

Ele afirma que, se alguém quer sabedoria, deve olhar para as formigas e aprender com suas atitudes e assumir suas responsabilidades. O texto diz que a formiga o faz sem precisar de um chefe ou alguém que a “obrigue” a fazer algo. Ela simplesmente o faz. É exatamente este o conceito de sabedoria hebraica: uma atitude prática.

Ou seja, todo o fruto da instrução divina seria traduzido como ações sábias de Josué na liderança da conquista. Estes princípios, simples e poderosos, podem (e devem) fazer parte de nossas vidas, se queremos viver as conquistas do Reino e, tão importante quanto isso, sermos conhecidos como filhos de Deus, testemunhando as obras dAquele que nos chamou das trevas para Sua maravilhosa luz.

“Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem.” (1Pe 2.12)

Em Cristo,

Pr. Daniel

(Obs: no próximo post teremos a conclusão da série)

Jonas, Jonas…

É manhã em Israel. O sol nasce devagar, preguiçoso por dentre as montanhas enquanto um certo profeta faz seu desejum matinal. “O que dia trará?” pode ter sido seu primeiro pensamento. As idéias rodavam despretensiosas em sua mente, enquanto saboreava o leite e o pão feitos no dia anterior – “este será um dia promissor”, pode ter pensado, até que uma sensação de urgência começa a brotar em seu coração.

Ele sabia do que se tratava. Era o Senhor chamando sua atenção, pronto a lhe dar instruções sobre onde ele deveria ir profetizar a Palavra do Altíssimo, o Santo de Israel.

“Irei a Jerusalém?”, deve ter pensado…“ou quem sabe uma visita à Nazaré? Faz tempo que não apareço por aquelas bandas…” e então ela veio, a voz inconfundível do seu Deus:

“Veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim.”  (Jn 1.1,2)

Jonas fica paralisado….a fome repentinamente se esvai e os pensamentos agora pipocam em sua mente numa vertiginosa rapidez.

Nínive?

Nínive?

Nínive???

“Não pode ser….devo estar enganado”. Porém, ele não estava e sabia disso. A ordem era clara. E uma ordem surpreendente…Nínive era a capital da Assíria, uma nação perversa e considerada uma ameaça pelos israelitas. E o Senhor o estava comissionando justamente para profetizar àquele povo.

O momento é dramático (para não dizer cômico). O profeta não esboça nenhuma reação aparente. Ele guarda calmamente a louça, arruma a cama, faz as malas e sai. Não há palavras em seus lábios. Ele não ousa olhar para o céu, sabendo que o Senhor estava, de qualquer modo, observando tudo. Um medo tolo, como se Deus não conhecesse aquilo que se passava em seu interior. Jonas fecha o portão de sua casa e toma uma rápida decisão: “Bom…Nínive fica a uns 800 Km a noroeste daqui. Então vou para o outro lado, a sudeste, em direção à Tarsis”. E segue o profeta então em plena fuga.

É isso mesmo que você leu. A Bíblia diz que Jonas foge logo após receber a ordem do Alto. O que o motivou a fugir? Ele mesmo confessa a Deus – acompanhe:

“…sei que és Deus piedoso e misericordioso, longânimo e grande em benignidade e que arrependes do mal” (Jn 4.2b). Em outras palavras, Jonas fugiu por não querer ver a salvação de Deus operando no meio de um povo que ele não gostava e que considerava indigno da graça divina. A seus olhos, a justiça divina seria mais compatível com a destruição daquelas pessoas, e não a salvação.

Será que somos diferentes de Jonas? Estando separados dele pelo tempo e pelas  circunstâncias, podemos confortavelmente julgar sua atitude e bater no peito de maneira ufanista, dizendo: comigo seria uma outra história! Somos tão diferentes dele assim? Medite na possibilidade de nossos relacionamentos estarem debaixo de semelhante senso de justiça própria… Nas ocasiões onde excluímos (cônscios disso ou não) os que pensam diferentes de nós, sem nem ao menos darmos uma chance de ouvir o outro lado da história. Sim, infelizmente o egoísmo (e a falta de maturidade cristã) podem nos trazer uma leitura equivocada das pessoas e da realidade que nos cerca. Concluímos que nosso senso de justiça é o do Senhor – e quando descobrimos que não é, não suportamos a graça do Senhor e fugimos.

Nos afastamos das pessoas, dos relacionamentos, de Deus…abandonamos a misericórdia e abraçamos o legalismo. Deixamos de edificar para sermos apenas servidos. Se não é do meu jeito, como eu penso, então não quero mais… Infelizmente, esta “armadilha” da justiça própria coloca o homem até acima de Deus, o que pode infelizmente ocasionar no abandono da vida cristã.

Qual a cura disso? Ver como Deus vê – ou seja, ler a realidade a partir da perspectiva bíblica, nos colocando em nosso devido lugar e prontos a obedecer a Deus sem questionar. A cura envolve em receber dEle a visão correta; e é isso que o Senhor vai fazer com Jonas.

“…não hei eu de ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que estão mais de cento e vinte mil homens, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua esquerda, e também muitos animais?” (Jn 4.11).

Enquanto Jonas os enxergava como um bando de pervertidos e indignos de qualquer misericórdia, o Senhor os via como “…ovelhas que não tem pastor, perdidos e sem qualquer referência de onde buscar ajuda”. 

Lembre-se sempre disso: antes de julgar alguém, procure saber de sua vida. Suas lutas, as dificuldades que superou até chegar ali. É fácil emitir uma opinião a partir de um ponto de vista particular. Entretanto, é cristão estender a mão, abraçar e, com o coração embebido do amor de Cristo, afirmar: “Está tudo bem. Nosso Salvador não veio buscar os sãos, mas sim os doentes…” (Mt 9.12)
Em Cristo, 
Pr. Daniel