Arquivo diários:7 de novembro de 2012

De todo o coração – parte 1

Amigo leitor, convido você a pensar por um momento em seu trecho favorito das Escrituras…

Imagine agora qual o versículo (ou capítulo) mais conhecido, amado mesmo por aqueles que não professam sua fé em Cristo – o que veio à sua mente?

Ao longo dos anos, tenho percebido que certas verdades estão, de algum modo, presentes no imaginário popular, transcendendo culturas e realidades tão distintas que compõe o mosaico da diversidade humana. São palavras escritas por pessoas como eu e você, mas que ao descreverem certas particularidades da condição humana alcançaram um patamar que atravessa o tempo e as gerações. Dentre tantos textos sublimes da Palavra de Deus, um deles foi capaz de traduzir uma necessidade ancestral comum a todo homem: a paternidade. Alguém que cuide de nossa alma e nos conduza pela mão enquanto enfrentamos a aventura de viver neste mundo, inseridos no Reino “ainda não mas já presente”.

Estou falando do Salmo 23, popularmente conhecido como o Salmo do Pastor. Entretanto, nossa série de reflexões não será baseada neste texto, mas na vida de seu escritor – Davi.

O que o tornou tão especial a ponto de ser um precursor do Messias? O que o jovem de bela aparência e de grande coragem fez com que seu nome se tornasse imortal, sendo descrito por Deus como segundo o Seu coração? Não estamos, com esta nova série, pretendendo ser exaustivos quanto ao tema, mas buscaremos ampliar nossa visão sobre o filho de Jessé e de como a graça divina tornou um pastor esquecido nos recantos das montanhas de Judá no rei mais famoso de Israel.

Nossa história começa durante o período da decadência do reinado de Saul, o primeiro rei da monarquia hebraica (cerca de 1095 a.C.). Devido à suas atitudes impetuosas e a rebelião a Deus, este fora rejeitado pelo Senhor que, dentre a nação, já escolhera o seu sucessor – Davi. O texto de 1 Samuel 16 nos traz o diálogo entre o Senhor e o profeta Samuel, que era então informado a respeito da sucessão no trono que em breve ocorreria:

“Disse o Senhor a Samuel: até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei” (1Sm 16.1)
Enquanto isso, nas montanhas de Judá, encontramos o então menino Davi. Imagine a cena: numa manhã como qualquer outra, uma brisa fresca sopra de mansinho e ouvimos ao longe os balidos das ovelhas. Próximo a elas, está o pastor: na realidade, quase não o vemos em meio a seu rebanho, pois a baixa estatura o esconde em meio às pastagens. Mas ali está ele. Olhos vívidos e brilhantes, cabelo ruivo como o fogo do sol, a pele bronzeada pelos longos dias de pastoreio.
Bem, os dias nem sempre foram assim tão calmos. Em certa ocasião, um leão teve que ser derrubado para salvar uma ovelha que se desgarrara. Em outra, uma coragem construída na solidão e adoração a seu Deus o capacitou a enfrentar um urso que ameaçava seu rebanho. Obstáculos comuns do cotidiano de um pastor? Sim e não… as lutas pela preservação de suas ovelhas incluíam não só o cuidado com possíveis predadores, mas também a necessidade de nutri-las. A olhos mais distraídos, ele não passava de um menino, um jovem imerso na tarefa de obedecer seu pai enquanto seus irmãos mais velhos treinavam no exército de Saul. Uma realidade bem distante da solidão que o cercava. Porém, aos olhos de Deus… ali estava o futuro rei de Israel, o maior de todos, o mais famoso. Aquele cujo trono seria sucedido pelo Messias, o Salvador. Enquanto ao olhar do mundo Davi não passava de mais um pastor vagueando nas pastagens de Israel, o Senhor via nele um homem segundo o seu coração.
Quem daria um vintém por Davi?
Mas enquanto nem ele mesmo se via além do que sua rotina lhe mostrava, Deus olhava além…via naquele moço o escolhido, o homem que marcaria não só sua geração, mas cujo exemplo de entrega e amor atravessaria o tempo e a história.
Davi.
Entretanto, Davi não está só….naquelas pastagens, está todo filho de Deus que se encontra sozinho em meio ao dia a dia esmagador dos tempos modernos. Hoje o leão tem o aspecto de um tempo cada vez mais escasso, rugindo alto e amedrontando que o ousa desafiar. O urso das pressões deste sistema caído, que tanto valorizam o ter e devoram o ser faz com que muitos abandonem o chamado do Senhor. Aos poucos vamos cedendo às pressões, deixando de ser sal da terra e luz do mundo e nos sentimos cada vez mais sozinhos, abandonados… afinal de contas, que dá valor aos pequenos, aos fracassados aos olhos deste mundo?
Mas espere…leia novamente o primeiro versículo acima citado:
“Disse o Senhor a Samuel: até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei”

Note como o Senhor se refere ao então anônimo Davi - rei. Ainda quem nem o próprio se considerasse algo além do caçula de Jessé, Deus já o via cumprindo seu propósito – Rei.
Impressionante.
Meu irmão, minha irmã…não se deixe enganar pelo conceito de sucesso conforme a mídia nos ensina. Popularidade não é sinônimo de sucesso (Jeremias que o diga!), altos salários e status social não são indicadores bíblicos de aprovação divina desde que Satanás ofereceu o mesmo a Jesus em troca de adoração.
Aprenda com Davi…enquanto seus irmãos lutavam para serem reconhecidos como guerreiros de Saul, o Senhor estava treinando o futuro rei de Israel no anonimato e na solidão. É ali, no deserto do esquecimento que se forjam os grandes guerreiros, os valentes.
Portanto, da próxima vez que qualquer pensamento de inutilidade vier à sua mente, lembre-se de Davi. Lembre-se da Escola do Anonimato. Lembre-se de ser fiel no pouco…são esses que, como mais tarde seriam conhecidos os discípulos de Jesus (outro bando de anônimos na época em que foram chamados),  “…estes que têm causado alvoroço em todo o mundo, agora chegaram também aqui…” (At 17.6).
Em Cristo,
Pr Daniel
(continua…)