“Pede prá sair 02…”

Um dos filmes mais comentados no cinema nacional nos últimos anos foi o “Tropa de Elite”, cuja história se passa em 1997 e mostra os preparativos para a visita do então papa João Paulo II ao Rio de Janeiro. Numa das cenas de treinamentos dos aspirantes ao BOPE, o líder do treinamento berra aos ouvidos de um deles: “Pede prá sair 02, pede prá sair…”. O motivo de um treinamento tão intenso era, dentre outras coisas, prepará-los para as situações de conflito a serem enfrentadas no futuro. Ainda que o treinamento fosse intencionalmente difícil, ao fim do curso os aprovados estariam aptos para realizar as mais difíceis missões.

Nas escrituras encontramos as mais diversas referências à vida cristã e como entender sua profundidade de atuação. Numa delas, Paulo compara nossas vidas à de um soldado, que deve buscar agradar quem o chamou à guerra:

“Nenhum soldado em serviço se permite envolver em negócios da vida civil, porquanto seu objetivo é agradar aquele que o recrutou para a guerra” (2Tm 2.4)

Portanto, se cremos neste chamado de caminhar ao lado de Cristo, estas palavras devem devem ser levadas tão a sério como tantas outras promessas do Rei. Há uma luta diária contra nosso ego e nossas tentativas (ainda que não percebidas) de assumir o comando. Porém, este lugar, se somos discípulos de Jesus, já está ocupado por Cristo. Isso nos leva a um outro aspecto interessante: qual nossa compreensão das dificuldades que passamos? Podem elas fazer parte de um currículum celestial de treinamento para filhos de Deus?

Novamente, deixemos Paulo nos fazer companhia nesta reflexão:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus”. (2Co 1.3-4)

Pense um momento sobre isso. E se as lutas que você enfrenta pudessem, de algum modo, serem usadas para o benefício de outros? E se após as adversidades, quando os ventos derem uma trégua, a consolação que você recebeu seja sua missão? Paulo garante que sim - há um propósito maior, que vai além de você.

Deixe-me explicar melhor. Nossas dificuldades (o colega de trabalho que insiste em nos “puxar o tapete”, aquele parente que só sabe nos arrumar confusão, aquele “amigo” que depois acabou mostrando não ser tão amigo assim, as tragédias que podem nos atingir, etc…) nas mãos de Deus podem ser usadas como meios de estender Seu amor. A partir do momento em que recebemos ajuda do alto, quando nos sentimos reconfortados por Deus, essa experiência acaba por ser tornar útil para todos os que estiverem numa situação similar à nossa.

Em outras palavras, tudo o que vivemos, desde que estejamos caminhando com Jesus, é usado em nosso treinamento como filhos de Deus. A dificuldade de hoje é a experiência de amanhã. A fraqueza de hoje torna-se a fortaleza de amanhã. Dia após dia, nosso caráter é lapidado de modo a parecermos mais com Jesus. Ou seja, Deus transforma aparentes fins em recomeços.

Dor em esperança.

Inutilidade em ocasião.

Vazio em propósito.

Agora…como você tem usado isso? Melhor ainda, como Deus tem usado suas experiência em algo útil no Reino? Algumas verdades não podem ser esquecidas:

Sim, há um propósito maior em tudo.

Não, não entenderemos a maioria das coisas que acontecem conosco.

O momento é difícil? Não parece haver saída? Entregue sua vida a Jesus…deixe que Ele o conduza ao caminho da vida, da esperança e de novos começos. Saiba que se confiarmos nossas vidas às mãos do Deus todo-poderoso, não há mal que não possa ser revertido em bênção.

Disseram a você que a morte é o fim?

Mentira.

Ele usou Sua morte para transformar nossa morte em vida.

O sepulcro vazio mostra isso – Ele não está lá.

Em Cristo,

Pr. Daniel

 

Um pequeno interlúdio

Porque às vezes as coisas parecem tão confusas?

Porque, mesmo buscando uma vida simples, o caos que impera no mundo insiste em fazer morada dentro de nós?

Porque tantas dúvidas, tanta incredulidade?

Porque, porque…se isso tem atormentado sua vida, seu dia a dia, bem vindo ao clube! Eu e você, companheiros de jornada no tempo chamado hoje, talvez estejamos lado a lado com tantos que, na lida diária com a vida, de algum modo tornam-se por vezes pessimistas e afadigados. Alguns de nossos companheiros, cujas vidas já passaram e encontram-se hoje na glória, têm um recado importante para nos dar.

Deixe então aí do seu lado seus porques e leia com atenção os versículos abaixo:

“Quando a ouviram dizer que Jesus estava vivo e que tinha aparecido a ela, eles não acreditaram [...] Eles voltaram e contaram isso aos outros discípulos, e estes não acreditaram no que os outros disseram” (Mc 16.11;13 – grifo nosso)

Capte aqui o que estava acontecendo. O investimento de suas vidas, Jesus, havia sido morto e com Ele suas esperanças e investimento. Os discípulos haviam aberto mão de muita coisa (ou tudo) por Jesus.

Conforto

Boa vizinhança

Tranquilidade

Controle

E muitas coisas poderíamos acrescentar à esta lista. Tudo isso foi deixado de lado quando, em meio às atividades cotidianas, ouviram certo dia “…vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4.19). Lucas detalha mais ainda esta cena, e acrescenta que eles  “…deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5.11).

Deixaram tudo. Este talvez tenha sido o ponto que mais tarde originaria a crise. Foram cerca de três anos de amizade, companheirismo, aprendizado, alegrias, tristezas e, principalmente, esperança. Todos nós sabemos que temos apenas uma vida. Todos nós buscamos vivê-la da melhor forma possível e encontrar um significado real para ela. Ninguém quer chegar ao final de seus dias e, ao olhar para trás, perceber que nenhum legado foi deixado.

Com os discípulos não era diferente.

Talvez nós conheçamos bem demais este sentimento, provavelmente mais do que gostaríamos e isso acabou por se tornar uma realidade incômoda, roubando a nossa paz. Como os discípulos, ouvimos falar de Jesus, aprendemos dEle nos estudos bíblicos e vibramos com cada testemunho de transformação de vida.

Porém…

Em algum momento, a tristeza se abateu sobre nós. Não sabemos de onde ela veio…tudo parecia tão tranquilo, calmo e certo. Não vimos como ela chegou; só sabemos que agora ela está aqui. Dorme e acorda conosco, rouba o paladar das refeições, a sinceridade do sorriso e leva consigo nossa esperança. Como ficamos?

Tristes.

Eles estavam assim. Profundamente tristes. Sua grande esperança havia sido pendurada numa cruz romana, objeto de escárnio e zombaria.

Já zombaram de seus sonhos? Sua esperança já foi alvo de dedos apontados e perguntas desafiadoras do tipo “Cadê o seu Deus?”

“E os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: …salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz [...] aos outros salvou; a si mesmo não pode salvar. Rei de Israel é ele; desça agora da cruz, e creremos nele” (Mt 27.39,40;42)

Palavras duras, que golpearam toda fé e esperança daqueles homens. Um momento de escuridão tomavam conta de tudo. O que tinha sobrado?

Tristeza.

Quando estamos assim, boas novas não são capazes de trazer de volta a alegria. Outras pessoas, por mais bem intencionadas que sejam não podem nos ajudar. Outros discípulos tentaram, as mulheres tentaram…mas eles continuaram trancados no cenáculo, com medo de que o mesmo destino de Jesus se tornasse o deles. No que pensavam? Será que seus pensamentos estavam fixos naquele dia, quando receberam o chamado de deixar tudo para trás?

Valeu a pena?

O que fazer agora?

E estes anos perdidos?

Inevitavelmente nos trancamos em nós mesmos. A reclusão torna-se um mecanismo de defesa, protegendo nosso já cambaleante interior de novas devastações. Procuramos reunir os cacos que restaram, e de algum modo continuar em frente, se isso for possível. Voltar atrás pode ser uma opção; afinal de contas, “os barcos podem estar na praia, e posso recomeçar de novo no ramo da pesca…”, podem ter pensado.

Mas… (não perca este momento…se necessário, respire fundo antes de continuar a leitura)

“Naquele mesmo domingo, à tarde, os discípulos de Jesus estavam reunidos de portas trancadas, com medo dos líderes judeus. Então Jesus chegou, ficou no meio deles e disse: 

- que a paz esteja com vocês!

Em seguida lhes mostrou as suas mãos e o seu lado. E eles ficaram muito alegres ao verem o Senhor.” (Jo 20.19-20)

Toda a fortaleza chamada tristeza (ou desapontamento, desânimo, abandono…os nomes são variados, mas o sentimento é o mesmo) simplesmente ruíram ante à visão do Senhor ressurreto. Jesus se coloca no meio deles, à vista de todos e ministra sobre eles aquilo que mais precisavam: paz.

Os olhos, momentos antes tomados de lágrimas de medo veem agora sua esperança de volta. Ela nunca havia os abandonado…Jesus muito tempo antes já os tinha ensinado a respeito de Sua morte e ressurreição, porém eles lembravam-se apenas da primeira parte – a morte. Onde estavam agora o abandono, o medo, a dúvida?

Simplesmente não havia mais lugar para eles – Sua esperança estava ali, viva e real!

O momento é dramático em todos os sentidos – Jesus ainda acrescenta:

” – que a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio a vocês!” (Jo 20.21).

Em outras palavras: o plano não terminou. Nunca esteve perto de terminar, ainda que as circunstâncias afirmassem o contrário. Eu sempre estive e estarei no meio de vocês, renovando suas vidas em Mim e trazendo a Paz que só Eu posso dar.

Como você está hoje?

Desanimado, abatido, triste?

Saiba que basta apenas uma visão de Jesus – receber dEle Sua Paz e nunca se esquecer de que sempre, sempre e para sempre Ele estará conosco, não importam as circunstâncias!

“…e eis que eu estou com vocês todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28.20).

Em Cristo,

Pr. Daniel

 

Série bem aventuranças – parte 1

Numa sociedade multifacetada como a nossa, em constante transformação de valores, torna-se quase impossível estabelecer um fundamento ou prumo no que tange à um caráter ilibado. Por vezes, o que para determinado grupo é uma virtude para outro não possui valor algum. Mesmo nas cidades pequenas, as tribos começam a se tornar comuns – os semelhantes atraindo-se mutualmente e desenvolvendo ali sua comunidade, ou comum-unidade. 

Entretanto, como cristãos, nos deparamos com este desafio diário de sermos constantes e fiéis àquilo que nosso Senhor espera de nós. O próprio conceito de fé está intimamente ligado à ideia de fidelidade – no hebraico, fé (emunah/אמונה) é sinônimo de fidelidade. Teriam as Escrituras a resposta para nós? Sem dúvida – encontramos o esteio para nossa vivência diária das palavras de Jesus no Evangelho de Mateus, no capítulo 5. Leia com atenção, medite e que o Espírito Santo transforme estas palavras em vida dentro de você. Vale lembrar nosso chamado de sermos luz do mundo, sal da terra. Em outras palavras, faça a diferença onde estiver!

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus;

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados;“ (Mt 5.3-4)

O que nos chama a atenção é a descrição de qualidades interiores, e não algo ligado ao exterior do homem. Jesus, ao apontar um caminho diferente do que vemos por aí, faz a clara distinção entre a felicidade (bem-aventurança) atrelada de algum modo à coisas externas, ou bens como preferir, e a realização a partir do que há dentro de nós. Ser um discípulo de Cristo é viver na contramão da cultura vigente; é olhar o mundo através da perspectiva divina. Assim, não somos felizes, ou completos ao possuirmos algo, mas a sermos alguém. É desafiador, mas libertador, ter nosso senso de realização dentro de nós por meio de Cristo – uma garantia de que nada pode nos roubar isso. Se temos algo, este pode ser subtraído de nós. Mas se somos algo, nada pode tocar!

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus;“(Mt 5.3). Aqui encontramos o primeiro princípio:

Reconhecer nossa total dependência de Cristo. 

É interessante ver como tudo aquilo que comumente se tem como valor, para Cristo, não necessariamente o é. Ele não diz “bem-aventurados os poderosos, os ricos em espírito”. Gostaríamos de ouvir, mas Jesus não o fala. Ao contrário, Ele afirma: “bem-aventurados os pobres…” A palavra grega usada aqui (πτωχοι-ptochoi) traz o sentido de impotente para realizar um objetivo; que rasteja; que se humilha.  O ponto de partida é mostrado por Jesus: uma posição. Ele aponta não só o caminho a ser trilhado, mas também o primeiro e importante passo; uma posição de coração, uma postura contrária àquilo valorizado pelo mundo, e que traz à tona o velho problema de todos nós: o orgulho.

Nossa dependência de Cristo é um trator que esmaga o orgulho e a autossuficiência humana. Lamentavelmente, há uma luta ferrenha pela autonomia. Queremos ser “donos de nossos narizes”, estabelecendo nossa vontade acima de tudo e todos. Esquecemos de quando Jesus, ao nos ensinar a orar (sim, até isso precisa ser ensinado), pede para que a vontade do Pai “seja feita na terra, como é feita nos céus”. Só um coração tocado por Jesus pode render-se totalmente.

Ser pobre de espírito é saber que estamos em “obras”, assim como os outros também estão. Isso nos lembra de não apontar o dedo e estabelecer julgamentos, pois somos todos igualmente carentes da graça do Senhor; erramos tanto quanto os outros. Se estou em obras, o meu irmão também está. Não é mais fácil viver assim? É a estes que a promessa é dada: o Reino do Pai pertence a vocês…

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados;“ (Mt 5.4) O segundo princípio que encontramos é:

Olhe além de si mesmo. 

A palavra chorar aqui traz o conceito de “lamentar por alguém”. Ou seja, não é um choro qualquer, mas uma compaixão dirigida à necessidade do próximo. Se nos colocamos numa posição de submissão a Cristo, nada mais natural que perceber que a vida, e porque não dizer a história, vai além de nosso “mundo” e percepção. Como já disse alguém, vale sempre lembrar que toda população do mundo – com apenas uma exceção – é composta pelos outros. O próprio Einstein afirmava que “só se começa a viver quando se vive para os outros”. O resultado natural de uma vida diante do altar do Senhor é ter nossos olhos abertos para o que acontece ao nosso redor. Estamos sim cercados de pessoas tão ou mais carentes que nós. O que nos impede de enxergar isso? Aquilo que deve ser tratado no princípio anterior: orgulho. 

A Bíblia é clara em fundamentar a vida cristã num termo: relacionamentos. Com Deus, conosco mesmo e com nosso próximo. Não há outro meio para se ter uma vida cristã genuína e plena. A pergunta que devemos responder a nós mesmos é o quanto valorizamos nossos relacionamentos. Por que temos tanta dificuldade em colocar os outros em primeiro lugar? Vale a pena viver uma vida ressentida, ao custo de afastar as pessoas de nós?

Tenha em mente a promessa dada por Jesus neste ponto: os que choram serão consolados. É saber que, ao nos colocarmos numa posição de auxílio aos outros, de deixar nosso “eu” de lado e prezar bons relacionamentos, teremos a garantia do próprio Deus em vir ao nosso socorro e sermos então curados e acolhidos. Ou, como diz o salmista:

“Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, socorro sempre presente nas tribulações” (Sl 46.1)

Em Cristo,

Pr. Daniel

(continua)