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De todo o coração – parte 2

Leia a primeira parte aqui

Uma das grandes questões tratadas na vida individual (e também coletiva) de todo cristão é a respeito de uma palavra comum, porém carregada de um profundo significado: chamado. Trata-se de uma parte indissociável de boa parte da teologia que trazemos conosco, desde o primeiro momento em que folheamos as Escrituras na busca de compreender o milagre de uma nova natureza agora implantada em nós. Comumente ouvimos ela nos púlpitos, nas rodas de conversa de novos convertidos e, claro, dentre os que já servem ao Reino com seus talentos.

Chamado.

Tão importante quanto saber qual é, torna-se claro a necessidade de discernimos quando  ele se inicia. Será que é a partir do momento em que nascemos de novo? Qual o tempo de “arregaçarmos as mangas” e colocar a mão no arado? Será este o meu lugar hoje no Reino de Deus? Em minha experiência como pastor, tenho visto estes questionamentos não só presentes nos novo-convertidos, mas também no discurso daqueles que já estão caminhando com o Senhor há algum tempo.

Chamado.

A simples menção desse vocábulo já faz o coração bater mais forte, não? Afinal de contas, quem nunca sentiu isso ao ouvir algo do tipo: “sabia que seu nome está na lista do pastor para ser um líder?” , ou então “seu nome tem sido comentado entre a liderança…creio que vão chamá-lo para algum trabalho”. É importante frisar a necessidade comum a todos nós de pertencer a algo, esse senso de coletividade colocado pelo próprio Deus no íntimo do ser humano. As associações para os mais diversos fins estão aí para comprovar isso – pois tal anseio transcende os limites do cristianismo e se faz presente em todas as culturas, de todas as épocas. Entretanto, encontramos a plena realização em Cristo, ao recebermos, pela graça, o real entendimento dessa missão preparado pelo Senhor desde a eternidade (cf Ef 2.10). Portanto, por mais que qualquer tipo de clube ou associação possam preencher este chamado primário, sua completude só encontramos na Igreja, respondendo ao Senhor e cumprindo o propósito divino.

No texto anterior vimos como a “Escola do anonimato” foi um instrumento do Senhor em moldar o caráter de Davi. As lutas travadas foram o prenúncio do chamado que ele haveria de receber de Deus. Nesta segunda parte, vamos acompanhar os fatos que se seguiram à conversa de Deus com o profeta Samuel e o que acontece então na casa de Jessé, pai de Davi.

Samuel seguira para Belém (בית לחם) em obediência à direção divina e lá vai em busca de Jessé. A presença do profeta na cidade causara grande alvoroço, pois havia o temor de que ele viera trazer algum tipo de juízo contra eles (“…é de paz a tua vinda?” v.4). Samuel os tranquiliza, explicando que estava ali para um sacrifício de paz e se aproxima de Jessé, com o intuito de conhecer seus filhos. Um a um os filhos de Jessé vão se apresentando diante de Samuel, respondendo ao convite do profeta. É importante salientar que nenhum dos presentes, salvo Samuel, sabia quais eram os motivos da vinda dele a Belém. À medida que eles iam chegando, começa um interessante diálogo entre a consciência de Samuel e o Senhor. A consciência de Samuel dizia: “é este”, mas o Senhor afirmava “não”. Preste atenção neste detalhe importante: o versículo 6 diz que Samuel falou consigo mesmo, e qual a sua conclusão?

“Sucedeu que, entrando eles, viu Eliabe e disse consigo: Certamente, está perante o Senhor o seu ungido”. (1Sm 16.6)

O que Samuel vira? O Senhor mesmo, no versículo seguinte descreve: “..não atentes para a sua aparência, nem para sua altura…”. A visão natural de Samuel o enganara, levando a um julgamento errôneo e a uma voz equivocada de sua consciência. No entanto, essa voz fora prontamente recepcionada como verdadeira! Observe como este processo de engano foi sutil: uma visão tendenciosa, uma consciência enganosa e pronto: uma decisão equivocada. Samuel concluíra que Eliabe era o próximo rei de Israel, o escolhido do Senhor. Mas estava enganado.

Temos aqui um ponto crítico da vida não só de Samuel, mas de todos nós: em que ponto achamos que a voz da nossa consciência é a voz de Deus? O texto nos traz indícios de como isso se processa em nosso interior. Em primeiro lugar, Samuel recebera uma ordem e e fora a Belém em obediência a ela. Na cidade ele convida Jessé e seus filhos para o sacrifício e quando ele vê Eliabe (o filho mais velho), diz consigo mesmo que ele era o escolhido, ao ver sua aparência. Para esmiuçar mais este ponto, vamos pontuar os fatos concernentes a Samuel – ele:

recebe uma ordem e obedece a ela;

ele vê Eliabe e impressiona-se com sua aparência;

sua voz lhe traz uma conclusão, que ele prontamente aceita como verdade. 

Encontramos então a fonte do engano: a consciência. Paulo faz menção a uma boa consciência como um dos requisitos da vida cristã (1Tm1.18-20). É interessante observar como a boa consciência está de algum modo conectada a fé (principalmente se levarmos em conta o conceito hebraico de fé, que traz uma forte noção de fidelidade). Portanto, manter uma boa consciência não é apenas uma sensação de bem estar, de “não estar devendo nada para ninguém”, mas sim em manter-se fiel a Deus, ligado a Jesus sem o qual nós nada podemos fazer. É ler a realidade a partir das Escrituras e não de nossos “achismos”. Enfim – manter uma boa consciência exige tempo, esforço e dedicação de cada um de nós que trilhamos pelo caminho estreito – e, de acordo com Jesus, são poucos os que andam por ele (Mt 7.13).

Samuel então concluíra ser Eliabe o escolhido; no entanto, o Senhor prontamente intervém na situação e mostra ao profeta que sua visão limitada estava levando a uma conclusão equivocada – o rei era outro. O escolhido era, pela graça divina, alguém que não satisfaria as expectativas naturais de um candidato a suceder Saul. Lembre-se de que uma das características naturais de Saul, ao ser escolhido como o primeiro rei de Israel, era uma aparência que o destacava dos demais (1Sm 9.2), e provavelmente Samuel pensava que este era um dos critérios. Nós agimos assim também: criamos padrões para o agir de Deus e, de certo modo, O colocamos numa “caixa” esperando que Ele faça exatamente o que queremos (claro que não era essa a situação de Samuel – ele apenas agira naturalmente ao obedecer a Deus). Por isso Deus mostra ao profeta o Seu ponto de vista, pois o Senhor sonda os corações e via as qualidades necessárias não no mais forte e aparentemente mais bem preparado Eliabe, mas sim no então anônimo e esquecido Davi.

Em outras palavras, somos aqui lembrados do que Isaías mais tarde afirmaria, que  “…os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos!” Afirma o SENHOR.”Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” (Is 55.8-9)

Lembre-se dessas lições valiosas: nem sempre a voz ouvida em nosso íntimo é a voz de Deus; mantenha uma boa consciência, firmada na Palavra de Deus; e finalmente, esteja pronto a não receber certas coisas pedidas em oração – pode ser que, pelo fato dos caminhos do Senhor serem mais altos, você tenha uma grata surpresa lhe esperando no amanhã…

Em Cristo,

Pr. Daniel

(continua)