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Série bem aventuranças – parte 1

Numa sociedade multifacetada como a nossa, em constante transformação de valores, torna-se quase impossível estabelecer um fundamento ou prumo no que tange à um caráter ilibado. Por vezes, o que para determinado grupo é uma virtude para outro não possui valor algum. Mesmo nas cidades pequenas, as tribos começam a se tornar comuns – os semelhantes atraindo-se mutualmente e desenvolvendo ali sua comunidade, ou comum-unidade. 

Entretanto, como cristãos, nos deparamos com este desafio diário de sermos constantes e fiéis àquilo que nosso Senhor espera de nós. O próprio conceito de fé está intimamente ligado à ideia de fidelidade – no hebraico, fé (emunah/אמונה) é sinônimo de fidelidade. Teriam as Escrituras a resposta para nós? Sem dúvida – encontramos o esteio para nossa vivência diária das palavras de Jesus no Evangelho de Mateus, no capítulo 5. Leia com atenção, medite e que o Espírito Santo transforme estas palavras em vida dentro de você. Vale lembrar nosso chamado de sermos luz do mundo, sal da terra. Em outras palavras, faça a diferença onde estiver!

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus;

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados;“ (Mt 5.3-4)

O que nos chama a atenção é a descrição de qualidades interiores, e não algo ligado ao exterior do homem. Jesus, ao apontar um caminho diferente do que vemos por aí, faz a clara distinção entre a felicidade (bem-aventurança) atrelada de algum modo à coisas externas, ou bens como preferir, e a realização a partir do que há dentro de nós. Ser um discípulo de Cristo é viver na contramão da cultura vigente; é olhar o mundo através da perspectiva divina. Assim, não somos felizes, ou completos ao possuirmos algo, mas a sermos alguém. É desafiador, mas libertador, ter nosso senso de realização dentro de nós por meio de Cristo – uma garantia de que nada pode nos roubar isso. Se temos algo, este pode ser subtraído de nós. Mas se somos algo, nada pode tocar!

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus;“(Mt 5.3). Aqui encontramos o primeiro princípio:

Reconhecer nossa total dependência de Cristo. 

É interessante ver como tudo aquilo que comumente se tem como valor, para Cristo, não necessariamente o é. Ele não diz “bem-aventurados os poderosos, os ricos em espírito”. Gostaríamos de ouvir, mas Jesus não o fala. Ao contrário, Ele afirma: “bem-aventurados os pobres…” A palavra grega usada aqui (πτωχοι-ptochoi) traz o sentido de impotente para realizar um objetivo; que rasteja; que se humilha.  O ponto de partida é mostrado por Jesus: uma posição. Ele aponta não só o caminho a ser trilhado, mas também o primeiro e importante passo; uma posição de coração, uma postura contrária àquilo valorizado pelo mundo, e que traz à tona o velho problema de todos nós: o orgulho.

Nossa dependência de Cristo é um trator que esmaga o orgulho e a autossuficiência humana. Lamentavelmente, há uma luta ferrenha pela autonomia. Queremos ser “donos de nossos narizes”, estabelecendo nossa vontade acima de tudo e todos. Esquecemos de quando Jesus, ao nos ensinar a orar (sim, até isso precisa ser ensinado), pede para que a vontade do Pai “seja feita na terra, como é feita nos céus”. Só um coração tocado por Jesus pode render-se totalmente.

Ser pobre de espírito é saber que estamos em “obras”, assim como os outros também estão. Isso nos lembra de não apontar o dedo e estabelecer julgamentos, pois somos todos igualmente carentes da graça do Senhor; erramos tanto quanto os outros. Se estou em obras, o meu irmão também está. Não é mais fácil viver assim? É a estes que a promessa é dada: o Reino do Pai pertence a vocês…

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados;“ (Mt 5.4) O segundo princípio que encontramos é:

Olhe além de si mesmo. 

A palavra chorar aqui traz o conceito de “lamentar por alguém”. Ou seja, não é um choro qualquer, mas uma compaixão dirigida à necessidade do próximo. Se nos colocamos numa posição de submissão a Cristo, nada mais natural que perceber que a vida, e porque não dizer a história, vai além de nosso “mundo” e percepção. Como já disse alguém, vale sempre lembrar que toda população do mundo – com apenas uma exceção – é composta pelos outros. O próprio Einstein afirmava que “só se começa a viver quando se vive para os outros”. O resultado natural de uma vida diante do altar do Senhor é ter nossos olhos abertos para o que acontece ao nosso redor. Estamos sim cercados de pessoas tão ou mais carentes que nós. O que nos impede de enxergar isso? Aquilo que deve ser tratado no princípio anterior: orgulho. 

A Bíblia é clara em fundamentar a vida cristã num termo: relacionamentos. Com Deus, conosco mesmo e com nosso próximo. Não há outro meio para se ter uma vida cristã genuína e plena. A pergunta que devemos responder a nós mesmos é o quanto valorizamos nossos relacionamentos. Por que temos tanta dificuldade em colocar os outros em primeiro lugar? Vale a pena viver uma vida ressentida, ao custo de afastar as pessoas de nós?

Tenha em mente a promessa dada por Jesus neste ponto: os que choram serão consolados. É saber que, ao nos colocarmos numa posição de auxílio aos outros, de deixar nosso “eu” de lado e prezar bons relacionamentos, teremos a garantia do próprio Deus em vir ao nosso socorro e sermos então curados e acolhidos. Ou, como diz o salmista:

“Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, socorro sempre presente nas tribulações” (Sl 46.1)

Em Cristo,

Pr. Daniel

(continua)

Isso o seguro não cobre…

Uma pergunta rápida: o que você valoriza e guarda com cuidado? 
Sim….uma pergunta abrangente que abre uma resposta com muitas variáveis. No entanto, vamos explorar um pouco mais o assunto. Pense por um momento nas coisas que possuem valor para você. Certo…agora selecione aquelas que possuem um alto valor agregado. Dentre elas, quais as que você, de algum modo, procura guardar com mais cuidado – talvez até através de um seguro?
Interessante ver como buscamos proteger aquilo que mais importa para nós. No campo das coisas materiais, a casa, o carro, recursos financeiros… na esfera emocional, o casamento, amizades…. no âmbito pessoal, nossos sentimentos, emoções, identidade…. e a lista é certamente extensa. Mas existe algo mais a ser preservado, que na grande maioria das vezes é ignorado?
Leia atentamente este versículo:
“sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida”. Pv 4.23
Interessante o texto. É natural preservar as coisas importantes para nós, como citamos acima. Um bom mordomo dos depósitos divinos sabe que os recursos em suas mão são um presente da graça divina, e o objeto final de tudo é a glória de Deus. Porém, a Palavra afirma com clareza de que acima de todas estas coisas, devemos guardar o nosso coração! E quantos de nós fazemos isso?
Guardamos tantas coisas…e isso é correto mas, acima de tudo isso, o nosso coração tem ficado na maioria das vezes exposto à todo tipo de lixo. E há um motivo claro para a importância de guardá-lo: dele procedem as saídas da vida… Em outras palavras, se o meu coração estiver bem, guardado, as outras esferas de minha existência estarão em equilíbrio. Caso contrário…
O problema é que esquecemos este princípio – e lutamos no intuito de preservar nossos sentimentos, relacionamentos, a família e ignoramos a fonte do bem estar de tudo isso. Mas aí surge a pergunta: como guardar o coração? Vivendo em meio ao caos social e a um mundo caído, longe de Deus, como guardar o coração de tanta poluição? Será que uma vida de isolamento pode trazer a resposta? Não, não traz… alíás, a origem de muitos dos males vivenciados  hoje é bem outra…
“porque do coração saem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicações, furtos, falsos testemunhos e maledicências” Mt 15.19
De onde saem todas estas coisas? Do coração! Bem…e como elas foram parar lá?
Esta reflexão não tem o intuito de versar sobre a origem do pecado ou da natureza caída que o homem possui (ainda que sejam fatores que incidam sobre o fato em questão). Vamos, no entanto, focar em como este tipo de lixo entra tão facilmente em nós, fazendo ali morada sem que nos apercebemos disto. Encontramos no livro de Gênesis uma história bastante interessante que traz princípios a serem aplicados em nosso cotidiano – tanto em discernir a origem do entulho quanto ao tipo de atitude deve ser tomada. Acompanhe:
“e todos os poços, que os servos de seu pai tinham cavado nos dias de seu pai Abraão, os filisteus entulharam e encheram de terra [...] e partiu dali, e cavou outro poço, e não porfiaram sobre ele; por isso chamou o seu nome Reobote, e disse: Porque agora o Senhor nos alargou, e crescemos nesta terra” Gn 26.18-22
Aqui Isaque encontra-se no meio de uma luta pelos poços que haviam sido cavados nos tempos de seu pai, Abraão. Observe o meio usado pelos filisteus para impedir Isaque de estabelecer-se na região: entulhar os poços! Bom, se num poço há água, e ela é o meio pelo qual a vida subsiste, fechar os poços impediria a água de fluir e, consequentemente, Isaque teria que sair da região. Entretanto, Isaque insiste e vai cavando outros poços até que os filisteus não o incomodam mais. Aí sim ele pode afirmar que o Senhor o fez crescer naquela terra.
Do mesmo modo, a responsabilidade de guardar o coração não é de Deus, mas nossa! A ordem é para todos nós: guarde seu coração… atente para o fato de que todos os dias entulhos são jogados em nossos corações…uma palavra mal colocada, um olhar de reprovação, um gesto de rejeição, uma linha de pensamento destrutiva… certamente estas coisas virão. Mas ainda assim a ordem continua firme: …guarde seu coração…

Devemos fazer como Isaque: ele perseverou em cavar poços até que achasse água, e o inimigo não mais atuasse nesse sentido. Portanto, é nossa responsabilidade “filtrar” todo pensamento contrário às Escrituras que porventura queira tomar nossa mente de assalto. A Bíblia em diversas ocasiões trata disso, e vamos aqui destacar dois textos:
“…derrubando os sofismas e e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo“ 2Co 10.5 (grifo nosso)
“quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai“ Fp 4.8 (grifo nosso)
Os textos falam por si só. Mas vale ressaltar a pró-atividade encontrada em ambos, de levarmos os pensamentos cativos à Cristo e a ocupar nossa mente com os preceitos da Palavra. O que sair deste prumo deve ser prontamente rejeitado. Uma atitude de vigilância, e não de passividade, nos é requerida. Este é um processo diário, de analisar com uma mente balizada na Palavra toda sorte de pensamentos e imaginações que brotam em nosso consciente, e prontamente rejeitar tudo o que fere as Escrituras e meditar no que é saudável, que traz vida e esperança. Aliás  meditar na Lei do Senhor é uma das características de todo homem de Deus bem sucedido (vide Salmo 1).
Jesus mesmo, em Sua vida terrena, enfrentou as mesmas situações vivida por nós – e em intensidade bem maiores! E naturalmente, olhando para a vida do Mestre aprendermos sua maneira simples e eficiente de colocar frente a frente toda informação recebida por ele e checar com as Escrituras. Se fosse verdade, entrava. Se não fosse….
Observe este embate clássico entre nosso Senhor e Satanás (Mt 4):
“Então, foi Jesus conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, havendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome; e, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Porém respondendo ele, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus. Então o diabo o levou à Cidade Santa, e o pôs sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque escrito está, que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca com teu pé tropeces em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. Outra vez o levou o diabo consigo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e sua glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, disse-lhe Jesus: Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás.”
Atente para o nível da batalha: no diálogo! Duas estruturas de pensamento estavam se chocando, a o ponto de referência para Jesus – o que O levou à vitória – foi combater os argumentos de Satanás com a Palavra! Em nenhuma das três ocasiões, mesmo aquelas onde o diabo cita as Escrituras de forma deturpada, os conceitos transmitido pelo inimigo foram aceitos por Jesus. Nem o caminho mais fácil, nem a provocação na identidade, nem a demonstração de poder…(só isso já dá outro post….)

A atitude de Jesus foi prontamente confrontar aquelas linhas de pensamento com a Palavra, e ao tempo em que eram rejeitadas, Satanás foi perdendo terreno e saiu dali derrotado.
Que possamos nós, pelo mesmo Espírito que conduziu Jesus ao deserto, manter nossas mentes ativas e vigilantes, levando todo pensamento cativo à obediência de Cristo e guardando nosso coração…

Se hoje é o dia para desentulhar seu coração, que tal começar agora mesmo?
Solideogloria

Pr. Daniel

O extraordinário no ordinário

“Naquela mesma hora, se alegrou Jesus no espírito e disse: graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve”. Lc 10.21

Simplicidade…

Cotidiano…

Espiritualidade…

Creio ser uma das conseqüências da sabedoria a vivência da espiritualidade na simplicidade da vida, no bom chimarrão, na roda de conversa com amigos sinceros, na extraordinária ação de um Deus tão grandioso em nosso cotidiano tão insignificante.

Essas coisas me surpreendem no Evangelho. E quanto mais eu estudo, mais tenho aprendido a dar valor nas coisas mais simples. Jesus discutia os meandros da Lei com os entendidos, mas Sua ação era vista na simplicidade dos que estavam à beira do caminho. Nestes o milagre da vida se tornava real. Aquele que perder a sua vida por amor de mim a encontrará...

A graça de Deus está logo ali mesmo, não é?

Pr. Daniel