(Leia a primeira parte aqui e a segunda aqui)
Tudo começara com uma Palavra.
Ainda alheio ao diálogo entre o Senhor e Samuel, Davi vivia seu cotidiano como sempre o fizera – até que ouve uma sentença, uma palavra que o mudaria para sempre: você será rei.
Conosco nem sempre será como aconteceu com Davi – podemos sim receber uma Palavra específica, que aponta para um propósito futuro. Entretanto, temos em comum as preciosas promessas que as Escrituras nos asseguram: vida eterna, perdão de nossos pecados, adoção de filhos pela graça do Senhor, entre outras. Observando de modo panorâmico a biografia de Davi, vemos a Palavra (ou promessa) não só o sustentando em meio às lutas, mas constantemente provando sua fé em Deus. Como uma série de inimigos em um ringue, um a um eles vão se apresentando diante do filho de Jessé e desafiando a promessa de Deus dada a ele. Quem sairia vencedor deste embate?
Primeiro round: Promessa vs Gigantes
Este talvez seja o confronto mais conhecido de Davi. Artistas e poetas já o descreveram das mais diversas formas, e ainda hoje ele povoa o imaginário popular pela identificação que temos quando estamos diante de grandes desafios aos nossos olhos. A batalha, ao contrário do que possa parecer, não foi consumada no momento em que Davi recolhe as pedras para sua atiradeira, mas antes, quando uma série de imprecações são dirigidas ao filho de Jessé. Leia o relato e não perca a tensão que pairava no momento em que eles finalmente se encontraram no vale de Elá:
“Golias parou e olhou bem para Davi, e começou a caçoar porquanto seu oponente não passava de um jovenzinho, ruivo, bronzeado e de boa aparência. Então esbravejou Golias a Davi: “Sou por acaso um cão, para que venhas ter comigo com um pedaço de madeira?”, e o filisteu amaldiçoou Davi pelos seus deuses.” (1Sm 17.42-43)
Observe que a batalha estava sendo travada não no ranger das espadas, mas no confronto das palavras. Havia dois discursos aqui, duas mensagens que traziam consigo realidades bem distintas: a palavra do gigante (quem é este pirralho?!? Vocês estão de brincadeira comigo? Vou esmagá-lo como um inseto) e a Palavra de Deus (Davi, você será rei). A vitória sobre aquele adversário, a despeito do seu tamanho, não foi somente pela habilidade em manusear uma atiradeira, mas sim pelo ouvido seletivo que Davi possuía. Ao escutar aquelas palavras, elas foram prontamente confrontadas pela confiança irrestrita à Palavra de Seu Senhor – observe:
“Contudo Davi retrucou ao filisteu: “Tu vens contra mim com espada, lança e escudo pontiagudo; eu, no entanto, venho a ti em Nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel que desafiaste! Hoje mesmo, o SENHOR te entregará em minhas mãos, eu te ferirei e te deceparei a cabeça, e darei o teu corpo e os cadáveres do teu exército filisteu às aves do céu e aos animais selvagens. Toda a terra saberá que há Deus em Israel, e toda esta multidão aqui reunida conhecerá que não é pela espada nem pela lança que o SENHOR concede a vitória, porque do SENHOR é a guerra, e Ele vos entregará em nossas mãos!” (1Sm 17.45-47)
É importante ressaltar o fato de Davi discernir o nível de batalha e, principalmente, saber que a vitória não viria através de alguma habilidade sua, mas de Deus e da fé nEle. Como Davi, todos os dias somos expostos à discursos e conceitos anti-bíblicos que buscam minar a fé no Senhor. A quem temos dado ouvidos?
Lembre-se de algo importante: sempre haverá uma palavra contrária àquilo que o Senhor nos garante nas Escrituras. Como Davi, precisamos selecionar o que ouvimos e nunca abandonar a nossa confiança no Senhor. O relato bíblico descreve a vitória incontestável do jovem pastor contra todas as probabilidades naturais, pois ele ousara crer numa Palavra desafiadora - você será rei.
Davi ousou olhar adiante e crer…e você, como tem reagido quando confrontado com um discurso maligno? Tem recuado em sua fé ou prosseguido de cabeça erguida, confiando nAquele que o chamou?
Segundo round: Promessa vs instabilidade do ser humano
Após ter vencido o gigante, o Senhor conduz Davi para servir ao rei Saul como músico em sua corte. Ele deixa para trás todo o ambiente que lhe era familiar para viver junto a Saul, um homem então perturbado e no declínio de seu reinado. A relação entre os dois é composta de momentos de grande afinidade intercalados por outros onde Saul busca tirar a vida de Davi.
O inimigo agora é outro. O discurso claro do gigante dá lugar à sutileza, pois a mensagem continua lá, desafiando a Palavra de Deus. Porém, o confronto se dá pela instabilidade não só de Saul, mas de todo aquele novo ambiente em que ele estava agora inserido. A previsibilidade dera lugar a incerteza. Imagine Davi acordando todos os dias e se perguntando, logo ao levantar: “Será que Saul hoje vai me beijar ou me matar?”
Conforme Jesus nos ensina, a única coisa que permanecerá para sempre é a Palavra de Deus – ou seja, tudo o mais é transitório. Nossa confianças nas pessoas, no dinheiro ou em nossa saúde, tudo isso um dia passará.
Como você tem reagido à imprevisibilidade da vida? A Palavra de Deus tem sustentado você?
Terceiro round: Promessa vs o deserto: quando nosso caráter é moldado
O processo de lapidar o caráter de Davi agora tem continuidade quando ele se vê obrigado a fugir da fúria de Saul. Deus iria então retirar todo apoio que não fosse Ele: os amigos, o mentor, o lar, de modo que nada mais restaria a não ser o Senhor. São momentos onde nosso coração é revelado, onde as fraquezas são expostas. Davi vê-se novamente envolto em circunstâncias onde sua fé é provada e a promessa parece cada vez mais distante. Mesmo assim, fugindo e andando errante por desertos e cavernas, ele se mantém fiel e prossegue crendo no que ouvira anos antes na casa de seu pai.
Você será rei. Se Deus falara, Ele ia cumprir.
Ponto final.
Quarto round: Promessa vs o tempo: estamos dispostos a esperar?
Passados mais de vinte anos, finalmente Davi é coroado como rei. A promessa se cumprira. Como Calebe antes dele esperara cerca de quarenta anos pela promessa, ou José que aguardou dezessete anos até ver seu sonho se tornar realidade, eu e você fazemos companhia a estes homens de Deus naquela que é uma das mais duras provas: a prova do tempo.
O texto bíblico não menciona, durante todos os anos anteriores, qualquer murmuração dele contra o o Senhor pela demora em receber a promessa. Não o vemos olhando para trás, cogitando largar tudo e voltar para as ovelhas de seu pai. Vale aqui o mesmo princípio visto no momento de deserto: às vezes a promessa chega rápido; em outras ocasiões, pode demorar. Em ambos os casos, o Senhor provará a nossa fé e coração: se vamos ou não nos manter fiéis a Ele.
Último round: Promessa vs morte: quem é mais forte?
Encontramos agora Davi em seu leito de morte, na companhia de seu filho Salomão. O tempo deixara marcas indeléveis no mais importante rei de Israel, e ele estava dando seus últimos conselhos a seu sucessor. É incrível como a promessa de Deus, que anos atrás o tirara do meio das ovelhas conduzindo-o a uma vida improvável, ainda se mantinha viva no coração e na memória. Ao protagonizar seu último ato, o discurso final do rei demonstra como a Palavra de Deus fora o fundamento de toda uma vida, o capacitando a enfrentar todo gigante, incertezas, desertos ou barreiras temporais que se colocaram entre ele e seu Deus. Nada havia abalado a fé do rei. A tentativa da morte em roubar a cena aqui é sublimada pela presença tão vívida da fé na promessa do Senhor, que ia além de sua própria vida. Acompanhe suas últimas palavras:
“Eis que o tempo em que devo seguir o caminho de todos os seres humanos está próximo. Portanto, sê forte e porta-te varonilmente. Obedecerás a tudo quanto o SENHOR, o teu Deus exige, andando em seus caminhos, observando seus estatutos, seus mandamentos, suas normas e seus testemunhos conforme estão escritos na Torá, Lei de Moisés, a fim de seres bem sucedido em tudo quanto empreenderes e em todos os teus projetos. E assim, o SENHOR manterá a promessa que me outorgou, afirmando: ‘Se os teus filhos conservarem boa atitude e conduta, caminhando com lealdade diante de mim, de todo o seu coração e de toda a sua alma, jamais te faltará alguém no trono de Israel!’ (1Rs 2.2-4 – grifo nosso).
É possível imaginar os sentimentos de Davi ao pronunciar estas palavras… seus pensamentos se voltam ao começo anônimo nos pastos de Israel e em tudo que enfrentara durante sua vida. Seu coração nunca estivera preso à bens materiais ou qualquer outra coisas que não fosse o Supremo Pastor que, pela Graça, o tirara do meio das ovelhas de seu pai para marcar seu nome na história.
Entretanto, nada mais daquilo importava…ao deixar esta vida e finalmente dar seus primeiros passos na glória, algumas palavras escritas ainda em seu tempo como pastor começaram a tomar um brilho intenso, passando de uma perspectiva longínqua a uma realidade cada vez mais próxima…
“…e habitarei na Casa do Senhor por dias sem fim.” (Sl 23.6b)
Em Cristo,
Pr. Daniel
