“Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13)
O texto acima é um dos mais conhecidos e reproduzidos em redes sociais, camisetas e bem presente no vocabulário de muitos. Cita-se ele nos mais diversos contextos e parece haver um senso de “eu vou conseguir” ao pronunciá-lo, como se o mesmo fosse alguma espécie de mantra cabalístico que evoca uma força divina frente às dificuldades.
Bom…sinto informar-lhe: não é.
Estas palavras do apóstolo Paulo, endereçadas à Igreja de Filipos, fazem parte de uma carta pastoral em que ele agradece por uma oferta recebida (4.14-19) e, dentre outros assuntos, ele procura informá-los de seu estado pessoal pois encontrava-se preso em Roma (1.12-30). No último capítulo da referida carta, Paulo fala de um aprendizado que resultou na famosa expressão “tudo posso naquele que me fortalece”. O que o apóstolo dos gentios aprendeu? Leia suas palavras:
“Sei bem o que é passar necessidade e sei o que é andar com fartura. Aprendi o mistério de viver feliz em todo lugar e em qualquer situação, esteja bem alimentado, ou mesmo com fome, possuindo fartura, ou passando privações.” (Fp 4.12 - grifo nosso).
Percebeu?
Ele pôde afirmar com convicção que podia todas as coisas devido ao aprendizado em viver com fartura e escassez. Em todo o lugar e em qualquer situação. Paulo estava fazendo menção à cruz, a negar-se a si mesmo e viver como um discípulo de Jesus. Ele falava de um aprendizado de uma vida inteira.
Bem diferente do que vemos por aí, ao ouvir alguém citando o versículo, não?
Entretanto, quero chamar a atenção para outro fato – o contentamento.
Paulo passara pelas situações mais extremas no ministério. Como ele mesmo diz, experimentou a fartura, fome, perigo de morte, ameaças e a dura realidade da perseguição (dos judeus e de Roma posteriormente). Em todas elas, ele dizia, aprendera a ser grato a Deus e a viver satisfeito com a graça. Ele sabia bem de onde viera; considerava-se o menor dos santos e o maior dos pecadores…
“Pois sou o menor dos apóstolos, nem mereço ser chamado apóstolo, porquanto persegui a Igreja de Deus…Todavia, por este motivo mesmo, me foi concedida misericórdia, para que em mim, o pior dos pecadores, Cristo Jesus, demonstrasse toda a grandeza da sua paciência, e me tornasse num modelo para todos quantos haveriam de crer nele para a vida eterna.” (1Co 15.9;1Tm 1.16)
Observe: Paulo era grato a Deus pela graça que o levou a ser aceito diante do Senhor. Era isso que estava sempre diante de seus olhos e em seus pensamentos. Por isso ele enfrentou as circunstâncias adversas com tamanha coragem e força; ele sabia quem ela fora e quem agora era.
E este, meu amigo, é um dos segredos do contentamento. Do mesmo modo, ignorar esta realidade pode nos fazer viver um descontentamento contínuo, o que só traz dor e amargura. Jesus, na parábola do filho pródigo, traz este ensinamento (entre outros) e nos mostra como a falta de reconhecimento da graça nos faz viver uma vida sem graça, distante de bons relacionamentos e propensa ao julgamento e acusação.
O relato está presente no Evangelho de Lucas, capítulo 15 a partir do versículo 11. A narrativa mostra um pai e seus dois filhos. O mais moço pede sua parte na herança e sai em busca dos “prazeres desta vida”. O que encontra? Miséria e solidão. Ele se arrepende e volta para os braços do pai, que o recebe e o restitui à sua posição de filho (ele não se julgava digno de tal). Entretanto, não vamos nos deter no filho mais moço, e sim no mais velho. O que o irmão fez ao ver o caçula retornando ao lar? Alegrou-se? Estava junto ao pai para dar as boas vindas? Acompanhe:
“Entrementes, o filho mais velho estava no campo. Quando foi se aproximando da casa do pai, ouviu o som da música e das danças.” (v.25)
Este detalhe é importante: ele estava trabalhando. Era obediente ao pai, cumpria suas obrigações e isso, de certo modo, alimentou seu senso de justiça própria. Veremos isso adiante. Ao se aproximar de casa e ver a celebração, foi logo informado do que estava acontecendo:
“Então chamou um dos servos e indagou-lhe sobre o que estava acontecendo. Este informou: ‘Teu irmão regressou, e teu pai mandou matar o novilho gordo, porque o recebeu de volta são e salvo!’. (vv.26,27)
A reação do mais velho é surpreendente. Ao ver seu irmão mais novo retornar, sangue de seu sangue, provavelmente companheiro das brincadeiras de infância e de trabalho, ele se enche de ira!
“Mas o filho mais velho encheu-se de ira, e negou-se a entrar. Então o pai saiu e insistiu com ele.” (v.28)
Ele se nega a participar da festa; esquece-se completamente do irmão e algo o faz afastar-se de todos! “É ridículo” pode ter pensado; “eu aqui me esforçando todos os dias, e nunca ganho nada…enquanto este aí desperdiça tudo e ainda é recebido com festa?!? Como?!” .
Apesar dos esforços do pai, o filho mais velho recusa-se a participar de tudo aquilo. Finalmente ele exprime a causa da ira e da recusa insistente:
“Porém ele replicou ao pai: ‘Há tantos anos tenho trabalhado como um escravo para ti sem nunca ter desobedecido a uma só ordem tua. Contudo, tu nunca me ofereceste nem ao menos um cabrito para que pudesse festejar com meus amigos. No entanto, chegando em casa esse teu filho, que pôs fora os teus bens com prostitutas, tu ordenaste matar o novilho gordo para ele!’.” (vv.29,30)
Aí está o senso de justiça própria que comentei acima: “…há anos trabalho aqui…nunca desobedeci…nunca me ofereceste…meus amigos…”. Note onde está o foco de sua dor: no seu ego – nele mesmo. O egoísmo e orgulho eram tamanhos ao ponto de se referir ao irmão como “…esse teu filho…”.
Assustador.
Podemos pensar em quanto tempo o mais velho tinha alimentado aquilo em seu coração, sem talvez nem ele mesmo perceber. O orgulho ferido falou mais alto que laços de sangue e o amor pela família.
Mais assustador ainda pelo fato de que, muitas vezes, assumimos sem nem perceber o papel de filho mais velho em nossos relacionamentos. E isso infelizmente é mais frequente do que imaginamos…
O ponto de cegueira do mais velho era o foco nele mesmo. Suas palavras refletem isso; seu bem estar estava acima de qualquer outra coisa. Ao olhar para os anos dedicados ao pai, os sacrifícios, ela julgara ser merecedor de maior honra. Seu crivo não era o pai e nem a graça de Deus; era ele mesmo. Acredite: quando o prumo de julgamento não é a Palavra de Deus, somos terrivelmente falhos em opinar sobre qualquer coisa.
Grave bem as palavras de Jesus (tão conhecidas quanto esquecidas):
“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados.” (Lc 6.37)
Amado leitor…não há exceções aqui: não devemos ser juízes de ninguém. Como cristãos, devemos manejar bem a Palavra de Deus e julgar ensinos contrários às Escrituras (Paulo elogiara certa vez os bereanos neste quesito). No entanto…há uma única pessoa passível de nosso julgamento – Paulo mesmo fala sobre isso:
“Examine, pois, cada um a si próprio…” (1Co 11.28a) – ou seja, nós mesmos. Como dito anteriormente, a Bíblia nos autoriza a julgar a nós mesmos, lembrar que somos pó e carentes da graça e misericórdia divinas. Que nosso pecado é tão grave quanto o do outro. E que devemos diariamente colocar nossas vidas no altar, sabendo que sem Cristo nós nada podemos fazer.
Portanto, o fato de olhar apenas para si fez com que o coração do filho mais velho fosse cheio de orgulho, auto justificação e julgamento. Ele despeja no pai suas reclamações, acusações apenas para ouvir uma resposta desconcertante:
“‘Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que possuo é igualmente teu.” (v.31)
Em outras palavras, o pai lhe diz: “filho, tudo o que tenho sempre esteve ao seu alcance. O problema é que você não usufruiu disso, ao tentar justificar a si mesmo como merecedor de tudo. Tudo o que tenho é seu, pela graça e não por mérito. Se assim fosse, eu não seria seu pai e nem você meu filho…”
Vale ressaltar a lição: quando olhamos para nós e nos achamos, de algum modo, merecedores de algo devido à nossas obras, caímos da graça. O sintoma mais evidente é o ato de julgarmos os outros, acusando atitudes que não coadunam com o nosso padrão (e não o bíblico). E quanto mais afastados da graça, mais religiosos nos tornamos – verdadeiros sepulcros caiados! O julgamento e o não reconhecimento da graça fez com que o filho mais velho não conseguisse desfrutar de tudo o que sempre esteve à sua disposição. Ele, ao contrário de Paulo, nunca aprendeu o contentamento por estar preocupado demais consigo mesmo e com o que “achava que era certo”.
Que possamos todos os dias ter nosso coração cheio de gratidão a Deus. Ainda que momentaneamente envolvidos em adversidades, ou que não tenhamos o que sonhamos… No entanto, acima de tudo o que este mundo possa dar, temos por esta mesma graça algumas coisas que dinheiro algum pode comprar: paz em meio às lutas, esperança no amanhã pois nossa vida está escondida em Cristo e a vida eterna com o Senhor.
Responda com sinceridade: precisamos de algo mais?
Em Cristo,
Pr. Daniel