(Leia a primeira parte aqui e a segunda aqui)
Continuando nossa série de reflexões sobre Josué, o Senhor o leva a um ponto fundamental no processo de conquista, auxiliando em sua função como líder e agora profeta do povo: a sabedoria.
Qual o conceito bíblico de sabedoria? Seria ela um dom restrito a poucos privilegiados ou, pelo contrário, disponível a todos quanto investirem tempo em buscá-la? Seriam necessários anos de estudo acadêmico ou uma cosmovisão apurada traz consigo a verdadeira sabedoria? Para responder a esta pergunta, observe a orientação que o Senhor traz a Josué:
“Somente seja forte e muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido”. (Js1.7-8 grifo nosso)Note a ênfase em certos aspectos relacionados a determinadas posturas frente a Palavra de Deus: obediência, discurso alinhado, pensamento subordinado ao crivo da Palavra e, por fim, ações práticas em prol da revelação. Iremos, portanto, explorar neste texto cada um destes aspectos para lançar as bases de um entendimento mais acurado do que seria, biblicamente falando, sabedoria.
Tudo vai começar pela obediência. Tendo em vista a série de batalhas que seriam travadas pela conquista da terra, estar alinhado com a Lei do Senhor era o pré-requisito fundamental neste processo. Haviam inimigos na terra; mais fortes e melhor preparados na arte da guerra. Israel, ao contrário, era formado pela segunda geração do povo que havia saído do Egito – portanto, filhos de escravos. Não tinham experiência alguma com a guerra, não tinham treinamento militar e nem tampouco um exército propriamente dito. Claro, haviam muitos homens na idade propícia para lutar, mas obviamente não se poderiam comparar com aquilo que os esperava. Deve-se também ter em mente os inimigos espirituais - demônios que mantinham seu domínio sobre os habitantes daquela região, e com certeza eles não iriam embora pacificamente (na realidade, sua influência continuou mesmo depois de conquistada a terra – mas isso já é assunto para outro post). É neste contexto que a ordem do Senhor começa a fazer sentido, pois há um princípio elementar de batalha espiritual aqui – veja o que Tiago ensina:
“Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo e ele fugirá de vós” (Tg 4.7)Obediência é o primeiro passo de qualquer conquista espiritual que possamos almejar. É ter aplicado em nossa vida, em todas as suas esferas, as orientações contidas nas Escrituras. Isso vai refletir em nossas relações (com Deus, conosco mesmo e com os outros), na maneira como lidamos com as finanças e como respondemos às mudanças em nosso caráter e cosmovisão. Deve-se lembrar que a tendência natural é a rebeldia, fruto da queda original; queda esta que afetou de forma profunda todas as relações humanas acima citadas. Entretanto, esta não é uma obediência cega; Josué foi instruído a obedecer tudo o que aprendera com Moisés. Preste atenção aqui: a verdadeira obediência a Deus advém de um coração humilde, disposto a aprender com os outros por meio de uma relação saudável. Numa cultura individualista como a nossa, é um desafio diário estabelecer e cultivar bons relacionamentos, ao sermos bombardeados por uma mídia que exalta a satisfação do eu em detrimento dos outros. A obediência de Josué estava atrelada à sua relação de longa data com Moisés.
Vale a pena ressaltar isso: como cristãos, não podemos cair no laço da autocomiseração (uma forma velada de orgulho), fazendo do papel de “vítima” um escape para alimentar o ego de uma forma doentia, nem tampouco nos colocar num patamar acima dos outros, tendo uma visão distorcida de força e estabilidade. De um modo ou de outro, abre-se um caminho para o isolamento e, por fim, a queda. Cristianismo é relacionamento – nunca esqueça disto!
Como resultado desta obediência, Josué teria um discurso alinhado com a Palavra de Deus. Isso era essencial não só para validar sua liderança, mas também para mostrar a continuidade do plano divino. O verdadeiro líder de Israel era o Senhor; Moisés, Josué ou qualquer outro líder a se destacar seriam apenas mediadores chamados por Deus como “porta-vozes”. Era importante que a nação aprendesse este princípio de modo a, mais tarde, ser o luzeiro entre as nações, testemunhando as obras grandiosas de Deus. Jesus mesmo faz menção ao nosso discurso ser reflexo do conteúdo de nosso coração (Mt 12.34).
O fruto da obediência e de um discurso alinhado na vida de Josué seria uma nova visão de mundo – em outras palavras, ele seria capaz de ler a realidade a partir da perspectiva divina. Isso já era manifesto quando do relato dele à Moisés juntamente com Calebe. Ambos, ao contrário do restante, viram a Terra Prometida como Deus a via. Observe como o ponto de vista correto faz toda a diferença! De todos os que partiram do Egito, apenas dois homens (com a perspectiva certa) sobreviveram aos quarenta anos. O restante morreu no deserto ao defender seus pontos de vista particulares. Isso é fundamental em nossos relacionamentos também. Paulo, ao escrever aos coríntios, os instrui a olhar os outros não mais pela ótica carnal (2Co 5.16) e isso precisa fazer parte dos fundamentos de nossas relações. As pessoas que convivem conosco certamente irão falhar em algum momento. Todos são falhos. Porém, sendo convertidos a Cristo ou não, devemos olhar e ver como se a obra do Senhor já fosse uma realidade na vida de determinada pessoa; orar pelos perdidos e exercer o perdão aos irmãos da fé. Lembre-se de que, se os outros erram, nós também erramos. Este ponto já nos leva ao último fundamento a ser observado por Josué (e por nós): atitude.
Todo nosso discurso sempre será provado pelas nossas atitudes. Ao contrário do pensamento grego (que valoriza a sabedoria conceitual), os hebreus tinham como conceito de sabedoria uma resposta prática a um ensinamento. Em outras palavras, o sábio não era aquele que necessariamente dominava determinado assunto, mas que agia de acordo com o que falava. Salomão, ao escrever o livro de Provérbios, dá um exemplo interessantíssimo:
“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio. Pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador; prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento.”(Pv 6.6-8)
Ele afirma que, se alguém quer sabedoria, deve olhar para as formigas e aprender com suas atitudes e assumir suas responsabilidades. O texto diz que a formiga o faz sem precisar de um chefe ou alguém que a “obrigue” a fazer algo. Ela simplesmente o faz. É exatamente este o conceito de sabedoria hebraica: uma atitude prática.
Ou seja, todo o fruto da instrução divina seria traduzido como ações sábias de Josué na liderança da conquista. Estes princípios, simples e poderosos, podem (e devem) fazer parte de nossas vidas, se queremos viver as conquistas do Reino e, tão importante quanto isso, sermos conhecidos como filhos de Deus, testemunhando as obras dAquele que nos chamou das trevas para Sua maravilhosa luz.
“Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem.” (1Pe 2.12)
Em Cristo,
Pr. Daniel
(Obs: no próximo post teremos a conclusão da série)
