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De que lado você fica – parte 3

(Leia a primeira parte aqui e a segunda aqui)

Continuando nossa série de reflexões sobre Josué, o Senhor o leva a um ponto fundamental no processo de conquista, auxiliando em sua função como líder e agora profeta do povo: a sabedoria. 

Qual o conceito bíblico de sabedoria? Seria ela um dom restrito a poucos privilegiados ou, pelo contrário, disponível a todos quanto investirem tempo em buscá-la? Seriam necessários anos de estudo acadêmico ou uma cosmovisão apurada traz consigo a verdadeira sabedoria? Para responder a esta pergunta, observe a orientação que o Senhor traz a Josué:

 “Somente seja forte e muito corajoso! Tenha o cuidado de obedecer a toda a lei que o meu servo Moisés lhe ordenou; não se desvie dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que você seja bem-sucedido por onde quer que andar. Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido”. (Js1.7-8 grifo nosso)

Note a ênfase em certos aspectos relacionados a determinadas posturas frente a Palavra de Deus: obediência, discurso alinhado, pensamento subordinado ao crivo da Palavra e, por fim, ações práticas em prol da revelação. Iremos, portanto, explorar neste texto cada um destes aspectos para lançar as bases de um entendimento mais acurado do que seria, biblicamente falando, sabedoria. 

Tudo vai começar pela obediência. Tendo em vista a série de batalhas que seriam travadas pela conquista da terra, estar alinhado com a Lei do Senhor era o pré-requisito fundamental neste processo. Haviam inimigos na terra; mais fortes e melhor preparados na arte da guerra. Israel, ao contrário, era formado pela segunda geração do povo que havia saído do Egito – portanto, filhos de escravos. Não tinham experiência alguma com a guerra, não tinham treinamento militar e nem tampouco um exército propriamente dito. Claro, haviam muitos homens na idade propícia para lutar, mas obviamente não se poderiam comparar com aquilo que os esperava. Deve-se também ter em mente os inimigos espirituais - demônios que mantinham seu domínio sobre os habitantes daquela região, e com certeza eles não iriam embora pacificamente (na realidade, sua influência continuou mesmo depois de conquistada a terra – mas isso já é assunto para outro post). É neste contexto que a ordem do Senhor começa a fazer sentido, pois há um princípio elementar de batalha espiritual aqui – veja o que Tiago ensina:

“Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo e ele fugirá de vós” (Tg 4.7)

Obediência é o primeiro passo de qualquer conquista espiritual que possamos almejar. É ter aplicado em nossa vida, em todas as suas esferas, as orientações contidas nas Escrituras. Isso vai refletir em nossas relações (com Deus, conosco mesmo e com os outros), na maneira como lidamos com as finanças e como respondemos às mudanças em nosso caráter e cosmovisão. Deve-se lembrar que a tendência natural é a rebeldia, fruto da queda original; queda esta que afetou de forma profunda todas as relações humanas acima citadas. Entretanto, esta não é uma obediência cega; Josué foi instruído a obedecer tudo o que aprendera com Moisés. Preste atenção aqui: a verdadeira obediência a Deus advém de um coração humilde, disposto a aprender com os outros por meio de uma relação saudável. Numa cultura individualista como a nossa, é um desafio diário estabelecer e cultivar bons relacionamentos, ao sermos bombardeados por uma mídia que exalta a satisfação do eu em detrimento dos outros. A obediência de Josué estava atrelada à sua relação de longa data com Moisés.

Vale a pena ressaltar isso: como cristãos, não podemos cair no laço da autocomiseração (uma forma velada de orgulho), fazendo do papel de “vítima” um escape para alimentar o ego de uma forma doentia, nem tampouco nos colocar num patamar acima dos outros, tendo uma visão distorcida de força e estabilidade. De um modo ou de outro, abre-se um caminho para o isolamento e, por fim, a queda. Cristianismo é relacionamento – nunca esqueça disto!

Como resultado desta obediência, Josué teria um discurso alinhado com a Palavra de Deus. Isso era essencial não só para validar sua liderança, mas também para mostrar a continuidade do plano divino. O verdadeiro líder de Israel era o Senhor; Moisés, Josué ou qualquer outro líder a se destacar seriam apenas mediadores chamados por Deus como “porta-vozes”. Era importante que a nação aprendesse este princípio de modo a, mais tarde, ser o luzeiro entre as nações, testemunhando as obras grandiosas de Deus. Jesus mesmo faz menção ao nosso discurso ser reflexo do conteúdo de nosso coração (Mt 12.34).

O fruto da obediência e de um discurso alinhado na vida de Josué seria uma nova visão de mundo – em outras palavras, ele seria capaz de ler a realidade a partir da perspectiva divina. Isso já era manifesto quando do relato dele à Moisés juntamente com Calebe. Ambos, ao contrário do restante, viram a Terra Prometida como Deus a via. Observe como o ponto de vista correto faz toda a diferença! De todos os que partiram do Egito, apenas dois homens (com a perspectiva certa) sobreviveram aos quarenta anos. O restante morreu no deserto ao defender seus pontos de vista particulares. Isso é fundamental em nossos relacionamentos também. Paulo, ao escrever aos coríntios, os instrui a olhar os outros não mais pela ótica carnal (2Co 5.16) e isso precisa fazer parte dos fundamentos de nossas relações. As pessoas que convivem conosco certamente irão falhar em algum momento. Todos são falhos. Porém, sendo convertidos a Cristo ou não, devemos olhar e ver como se a obra do Senhor já fosse uma realidade na vida de determinada pessoa; orar pelos perdidos e exercer o perdão aos irmãos da fé. Lembre-se de que, se os outros erram, nós também erramos. Este ponto já nos leva ao último fundamento a ser observado por Josué (e por nós): atitude.

Todo nosso discurso sempre será provado pelas nossas atitudes. Ao contrário do pensamento grego (que valoriza a sabedoria conceitual), os hebreus tinham como conceito de sabedoria uma resposta prática a um ensinamento. Em outras palavras, o sábio não era aquele que necessariamente dominava determinado assunto, mas que agia de acordo com o que falava. Salomão, ao escrever o livro de Provérbios, dá um exemplo interessantíssimo:

“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio. Pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador; prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento.”(Pv 6.6-8)

Ele afirma que, se alguém quer sabedoria, deve olhar para as formigas e aprender com suas atitudes e assumir suas responsabilidades. O texto diz que a formiga o faz sem precisar de um chefe ou alguém que a “obrigue” a fazer algo. Ela simplesmente o faz. É exatamente este o conceito de sabedoria hebraica: uma atitude prática.

Ou seja, todo o fruto da instrução divina seria traduzido como ações sábias de Josué na liderança da conquista. Estes princípios, simples e poderosos, podem (e devem) fazer parte de nossas vidas, se queremos viver as conquistas do Reino e, tão importante quanto isso, sermos conhecidos como filhos de Deus, testemunhando as obras dAquele que nos chamou das trevas para Sua maravilhosa luz.

“Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem.” (1Pe 2.12)

Em Cristo,

Pr. Daniel

(Obs: no próximo post teremos a conclusão da série)

De que lado você fica? – parte 2

(leia antes a primeira parte aqui)

Antes de iniciar o segundo ponto, é importante frisar o o cuidado de Deus nos detalhes da jornada. Primeiro, o Senhor faz Josué encarar o fato da morte de Moisés e como agora o momento era seu. O passado deve ficar onde está: no passado. Remoer fatos e imaginar situações hipotéticas a partir de pensamentos iniciados com “e se…” não o levaria (e nem a nós) a lugar algum. É natural nos assustarmos quando, acostumados a seguir alguém, somos levantados à posição de liderança – uma situação onde nos encontramos sob os olhares de todos à espera de direção. O desconforto certamente pousou em seus ombros. O receio da comparação era real. O que pensarão de mim? Como lidar com aqueles que até pouco tempo eram meus pares? É a partir deste cenário que observamos maravilhados como o Senhor conduziu todo este processo, sendo bastante enérgico no comando dado a Josué de se erguer de sua posição anterior e assumir uma nova postura. A partir de agora, não só a atenção do povo, como também a atenção do Senhor estava sobre a sua vida.

Prossigamos então com o segundo princípio apontado pelo Senhor:

2) uma preparação era necessária: “Agora, pois, você e todo este povo preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas…”(grifo nosso). Em outras palavras, o Senhor estava pontuando com Josué algumas atitudes necessárias. “Josué, faça um planejamento. Organize as fileiras. Distribua as provisões. Prepare-se, pois vou dar a terra para vocês…”. Planejar é também uma atitude espiritual. Observe que no versículo 10 e 11 vemos Josué respondendo ao comando do Senhor: “Então Josué orientou aos oficiais do povo: passai pelo meio do acampamento e e dai esta ordem ao povo: “Preparai vossas provisões!” Daqui a três dias atravessareis o Jordão neste ponto, com o objetivo de entrardes e ocupardes a terra cuja posse o Senhor vosso Deus vos concede”.

Algumas coisas nos chamam a atenção aqui: o planejamento do cristão deve estar submetido à Palavra de Deus. Josué é instruído pelo Senhor e só então toma as atitudes necessárias. Infelizmente, muitos de nós agimos exatamente ao contrário: fazemos planos e simplesmente esperamos que o Senhor os abençoe! A ordem é clara: devemos passar pelo crivo bíblico tudo aquilo que pensamos (Fp 4.8) e  só então apresentá-los diante de Deus em oração e humildade. Pela Sua graça, o Senhor em Sua soberania pode ou não abençoar nosso planejamento. A maturidade nos ensina que mesmo projetos respaldados pela Bíblia podem receber um sonoro não de Deus. Veja o exemplo de Davi quando, ao final de sua vida, resolve em seu coração construir um templo ao Senhor (2Sm 7). Apesar de um desejo lícito e louvável, o Senhor não o permitiu, transferindo a tarefa para seu filho Salomão. A atitude de Davi em resposta ao não de Deus? Gratidão e humildade em perceber tamanho amor pela sua família – não é à toa que ele recebe a alcunha de “homem segundo o coração de Deus”. Muitos querem ser conhecidos da mesma maneira sem deixar de abrir mão do eu; e quando muito, o fazem sob os mais vigorosos protestos. Bem diferentes do exemplo de Davi, não?

Outro ponto a destacar é a boa comunicação exercida por Josué. O texto narra que ele “…orientou aos oficiais do povo: passai pelo meio do acampamento e dai esta ordem ao povo…”. Não só o diálogo entre ele e as lideranças do povo era eficiente, mas também o movimento de interação promovido ali – cada oficial deveria repassar a ordem no meio do acampamento. Ou seja, havia um senso de comunidade muito forte com consequências interessantíssimas. Mesmo a hierarquia não era capaz de fazer qualquer distinção entre eles – o trânsito parecia fluir com naturalidade. O resultado disso foi o movimento criado, onde todos participaram do preparo das provisões para a conquista.

Vale ressaltar a ordem dos fatos: uma direção dada pelo Senhor, a prontidão de Josué em responder ao chamado,a boa comunicação (pode-se afirmar também bons relacionamentos) e o movimento entre o povo resultantes de tudo isso. Quaisquer pontos negligenciados aqui trariam graves consequências ao processo da conquista – grave isso em seu coração. Jesus mais tarde, ao longo de Seu ministério, foi enfático ao ensinar a premência de  ouvir e entender aquilo que se ouve. Uma audição apurada é parte fundamental em nosso relacionamento com o Senhor, e ela só é desenvolvida quando investimos tempo em leitura e oração na Palavra. É algo que se adquire com o tempo, sem atalhos nem subterfúgios.

Por último, vale destacar mais dois princípios importantes aqui: a comunicação saudável traduz de forma clara a visão. Qual era a finalidade de estarem ali? Entrar e ocupar a terra. Não era uma passeio com a família, muito menos um tempo de férias. Era chegada a hora tão ansiada de finalmente pisar e conquistar os sonhos de toda uma vida. Após tantos anos de escravidão e peregrinação, o ápice de tudo aquilo ia se tornar real. A visão clara é importante não só para o resultado da campanha, mas serve também como um poderoso agente motivador nos corações. Ninguém aprecia andar a esmo, errante de lugar em lugar. Observe como estes pontos até aqui mencionados são como elos de uma corrente, sem os quais uma visão não pode ser tornar realidade. Não obstante, finalizamos esta reflexão chamando a atenção para o lugar onde Josué estava direcionando o foco do povo: o Senhor. Toda a preparação, todo movimento só tinham razão de ser por causa da fonte de tudo – Deus. Leia com atenção as últimas palavras de Josué ao instruir a nação: “…Daqui a três dias atravessareis o Jordão neste ponto, com o objetivo de entrardes e ocupardes a terra cuja posse o Senhor vosso Deus vos concede”.

Sim, eles tinham uma promessa, os recursos necessários e os meios para a conquista. Mas nada disso teria qualquer resultado significativo se o Senhor não estivesse à frente. Josué aprendera com Moisés a lição de que tudo provinha do Senhor, e ele soube, desde o começo, transferir toda a Glória para Deus. Por maiores que fossem seus esforços, ainda assim sem o Senhor tudo aquilo seria em vão.

Absorva estes princípios…e lembre-se sempre das palavras do salmista:

“Se o Senhor não edificar a casa, trabalham em vão os que desejam construí-la” Sl 127.1

(continua)

Entendes o que ouves?

Ora, achando-se eles na Galiléia, disse-lhes Jesus: o Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-ão, e, ao terceiro dia, ressuscitará. E eles se entristeceram muito”  Mt 17.22-23

Será que temos ideia de o quanto as distrações podem ser letais? Letais para a nossa fé, para nossa cosmovisão e entendimento da realidade que nos cerca?

Em determinada ocasião, Jesus estava falando com os discípulos sobre fé, pois eles não haviam conseguido libertar um menino por causa de sua incredulidade. Jesus incia um diálogo com eles sobre a realidade de uma fé sem reservas, focada no lugar certo (o Pai) e de como ela se torna um instrumento poderoso em Suas mãos. Em seguida, Jesus faz menção à Sua morte e ressurreição, gerando uma reação impressionante nos apóstolos. A Bíblia diz que eles se entristeceram. Isso mesmo, você não leu errado – eles se entristeceram muito.

Impressionante.

Jesus estava compartilhando com eles o momento ápice de seu ministério, do plano de Deus para redimir o homem e qual a resposta dos ouvintes?

Tristeza.

Naturalmente somos então levados à seguinte questão: será que entendemos tudo o que ouvimos de Deus?

Deus sempre fala…mesmo Seu silêncio fala. O grande problema é que não ouvimos e, quando ouvimos, se entendemos realmente o que Ele diz. Veja que Jesus estava falando sobre sua morte e ressurreição, mas eles não entendiam isso. Poderiam estar pensando de uma maneira genérica, na ressurreição final de todos no fim dos tempos (olam habáעולם הבא). Este pensamento não era novo, pois mesmo Marta, ao ouvir de Jesus que seu irmão Lázaro ressuscitaria, responde a Jesus dizendo que “…Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia…”(Jo 11.24). Afinal de contas, não havia precedentes de alguém ressuscitando após três dias! De algum modo, sua limitação ao crer além dos limites naturais os fez não ouvir mais nada depois da menção de Jesus à Sua morte.

Este é um grande problema nosso: temos dificuldade com o novo, de sequer imaginar Deus fazendo algo que nos surpreenda. Momentos antes Jesus falava da fé, que através dela nada é impossível, mas mesmo assim eles não entenderam. Os discípulos fixaram suas mentes apenas no momento de morte e ficaram tristes com isso. Não que não devessem ficar – afinal de contas, Jesus iria morrer. Mas Ele mesmo estava garantindo que iria ressuscitar. Cadê então a alegria?

Interessante pensar que Jesus não continuou falando do assunto, nem explicando para eles a necessidade da cruz. Podemos pensar que determinadas coisas Deus até nos fala mas, como não estamos preparados para ouvir, Ele deixa que a semente siga seu caminho natural, germine e cresça. Observe que somente após Sua ressurreição eles entenderam, ainda que alguns tenham duvidado (Mt 28.17). Não é à toa que Jesus, em diversas ocasiões, alertou para o fato de “quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” O problema não está nAquele que fala, mas naquele que ouve! As palavras de Jesus nunca trarão tristeza, a não ser que não consigamos entender o que Ele diz…mesmo que sejam adversidades, Ele sempre lança a semente de esperança! Será que entendemos o que ouvimos? Se estamos ainda confusos e tristes, devemos continuar aos pés de Jesus até que tenhamos entendido tudo o que Ele quis nos dizer…

E você…tem ouvido e compreendido aquilo que Jesus ministra em sua vida?

Em Cristo,

Pr. Daniel